POR CLAUDIO FERREIRA
Essa aqui é Dona Geralda. Quando cheguei ontem no hospital, ela ficou me olhando de rabo de olho. Quando menos esperei ela me chamou até o leito dela. Ela disse que queria um favor. Não conseguia urinar na fralda e queria que eu a levasse ao banheiro. Eu sem tempo, por ter milhões de pacientes para cuidar, pedi um momento a ela. Ela reclamou, ficou chateada na verdade. Achou que eu não voltaria até ela. Fui lá administrar os medicamentos em outros pacientes. E voltei no leito daquela senhora, já revoltada. Ela abriu um sorriso quando me viu e desabafou: “Meu filho, to apertada desde ontem à noite, mas ninguém quis me levar ao banheiro, mandaram eu fazer na fralda.” Tentei explicar e contornar a situação pra ela e fazer com que a raiva diminuísse, mas no fundo eu a entendi e também fiquei chateado, afinal não custa nada né? Fui buscar a cadeira, encaminhei ela pro banheiro, ela muito tímida, mandou eu esperar do lado de fora. Depois levei ela pro leito. Ali fizemos aquele elo de paciente X profissional. Passamos o dia bem, conversamos bastante. Ela começou a passar mal na parte da noite. Me gritou 300 vezes. Uma das últimas vezes que fui atende-la, ela segurou minha mão e implorou pra que eu deixasse ela bem pra passar o dia das mães com os filhos dela em casa. Confiante eu disse que ficaria tudo bem. Ela dormiu e não acordou mais. Fiz meu papel. A confortei no último momento. Estive lá por ela e fiz jus a tatuagem que carrego no braço. E algumas pessoas? Bom, algumas pessoas julgam a enfermagem, a saúde pública, privada não importa qual seja. Sempre falam a mesma coisa: “Tá tudo uma merda/nada funciona/demora muito/vamos processar esse hospital…” sim existem muitos profissionais, alguns bons e outros ruins. Muita gente. Eu não curto esse lance de generalização. Sim, muita coisa não funciona , porém muito não é tudo/todos. Eu funciono, e ainda estou aqui. Espero estar lá por você quando for necessário. Como lidar? Eu não sei, foi difícil segurar lágrimas na hora de embrulhar o corpo. Mas recebi tapinhas de colegas no ombro dizendo que tenho que me acostumar. Na hora que isso acontecer, deixei minha humanidade na porta do hospital, voltarei pra buscar no final do plantão. Desculpe pela imagem.