O avanço dos carros elétricos no Rio de Janeiro passou a chamar a atenção não apenas de consumidores, mas também do crime organizado. Um novo fenômeno preocupa as autoridades: veículos elétricos roubados estão sendo abastecidos dentro de comunidades dominadas pelo tráfico, por meio de ligações clandestinas de energia, conhecidas como “gatos de luz”.
Durante uma operação conjunta das polícias Civil e Militar na comunidade da Vila Aliança, na Zona Oeste, agentes localizaram um ponto de recarga usado por traficantes do Terceiro Comando Puro (TCP). Segundo as investigações, o local servia para abastecer carros elétricos roubados ou furtados, que depois eram usados pelos criminosos ou desmontados para a revenda de peças.
Casos semelhantes já foram identificados em outras áreas dominadas por facções. De acordo com a Polícia Civil, há registros de pontos de recarga clandestinos em favelas do Complexo da Maré, tanto em áreas controladas pelo TCP quanto pelo Comando Vermelho (CV). A prática também foi detectada nos complexos da Penha, do Alemão e do Chapadão. Em geral, os veículos são ligados diretamente a postes de energia, sem qualquer custo para os criminosos, reduzindo riscos e evitando a exposição em postos de combustível.
O secretário de Polícia Civil, delegado Felipe Curi, confirmou o aumento nos roubos de carros elétricos e destacou que, em 2023, foi encontrado um wallbox — carregador residencial fixo — instalado por traficantes na Penha, usado para recarregar veículos avaliados em mais de R$ 200 mil. Segundo ele, a facilidade de recarga dentro das comunidades tornou esses veículos ainda mais atrativos para o crime.
Dados reforçam a preocupação. Apenas na Baixada Fluminense, um relatório interno apontou 54 ocorrências envolvendo uma única marca de carro elétrico em 2024, sendo 13 em Duque de Caxias. O crescimento acompanha a expansão do mercado: em 2024, o Estado do Rio vendeu 12.754 veículos elétricos; no ano seguinte, o número saltou para 20.262.
As autoridades acreditam que o aumento também pode estar ligado a represálias do tráfico após grandes operações policiais. Para combater o problema, a Polícia Civil intensificou ações como a Operação Torniquete, com foco especial na Baixada Fluminense. Já a Light informou que atua diariamente no combate a fraudes e estuda estratégias para coibir o uso ilegal da rede elétrica no abastecimento desses veículos.