Relatório da Agência Nacional de Águas (ANA) aponta que aumentou de 25 barragens, em 2016, para 45 em 2017 o número de áreas com risco de rompimento no país. A maioria está localizada no Norte e Nordeste, em estados como Acre, Alagoas e Bahia. De acordo com os técnicos, há problemas de baixo nível de conservaçăo, insuficiência do vertedor e falta de documentos que comprovem a estabilidade da barragem.
As informaçőes constam do Relatório de Segurança de Barragens – 2017 (RBS), de 84 páginas, coordenado anualmente pela ANA, divulgado nesta segunda-feira (19/11). No período coberto pelo relatório foram identificados 14 episódios de acidentes e incidentes, sem vítimas fatais.
Das 45 barragens, 25 pertencem a órgăos e entidades públicas, segundo a agência. No país há um cadastro que reúne 24.092 barragens para diferentes finalidades, como acúmulo de água, de rejeitos de minérios ou industriais e para geraçăo de energia.
Porém, os técnicos calculam que o número de represamento artificiais espelhados pelo país seja pelo menos três vezes maior. De acordo com a ANA, a quantidade exata só será conhecida quando os órgăos e entidades fiscalizadoras cadastrarem todas as barragens sob sua jurisdiçăo.
Das 24.092 barragens registradas, 3.545 foram classificadas pelos agentes fiscalizadores segundo a Categoria de Risco (CRI) e 5.459 quanto ao Dano Potencial Associado (DPA). Das barragens cadastradas, 723, o equivalente a 13%, foram classificadas simultaneamente como de CRI e DPA altos.
O Brasil possui 43 potenciais agentes fiscalizadores, dos quais quatro săo federais e 39, estaduais. No ano passado, 31 órgăos atuavam efetivamente como fiscalizadores por terem instaladas sob sua jurisdiçăo empreendimentos com as características especificadas pela PNSB.
Investimentos
A ANA informou que foram aplicados R$ 34 milhőes, no ano passado, para serviços de operaçăo, manutençăo e recuperaçăo de barragens. Em 2016, foram investidos R$ 12 milhőes.
Elaborado anualmente, sob a coordenaçăo da ANA, o relatório se baseia em informaçőes enviadas pelas entidades ou órgăos fiscalizadores de segurança de barragens no Brasil. O documento é remetido pela agência ao Conselho Nacional de Recursos Hídricos (CNRH), que o remete ao Congresso Nacional.
Tragédia Mariana
A tragédia de Mariana, em Minas Gerais, completou três anos na última segunda-feira (5/11). Na ocasiăo, uma barragem da mineradora Samarco se rompeu liberando rejeitos de mineraçăo no ambiente. No episódio, 19 pessoas morreram e comunidades foram destruídas, como o distrito de Bento Rodrigues. Houve também poluiçăo da bacia do Rio Doce e devastaçăo de vegetaçăo. Desde novembro de 2016, tramita na Justiça Federal de Ponte Nova (MG) uma açăo criminal sobre a tragédia, que se tornou o maior desastre ambiental já registrado no país.
Mesmo após o reassentamento nos distritos reconstruídos, previsto para começar em 2020, os atingidos manterăo a propriedade dos antigos terrenos, mas o que será feito do local onde um dia eles moraram ainda será debatido com a prefeitura e com o Conselho do Patrimônio de Mariana (Compat). As comunidades devastadas de Bento Rodrigues e Paracatu, atualmente, estăo interditadas pela Defesa Civil. O acesso só é permitido com autorizaçăo. Os atingidos têm passe livre.
Com 15 anos de magistério, Fabíola (nome fictício a pedido da entrevistada), 38, pela primeira vez afastou-se do trabalho por motivo de saúde. Na semana passada, entregou à Secretaria de Educaçăo do DF um atestado psiquiátrico de 15 dias. No documento, consta a CID 10 F41.0, o que, no sistema de classificaçăo de doenças, significa transtorno de pânico.
A professora de história já pensa em mudar de profissăo. Acostumada a malcriaçőes e rebeldias de estudantes adolescentes, jamais pensou, porém, que o comportamento de alunos fosse afetá-la a ponto de adoecer. Desde o ano passado, ela diz sofrer ameaças e constrangimentos pelo teor de suas aulas. “Criaram perfis falsos para me atacar no Facebook. Apaguei todas as redes sociais. Na sala de aula, apontam o celular para mim”, relata. No período eleitoral, a perseguiçăo ficou acentuada, segundo a professora. “Recebi mensagem no Facebook dizendo que seria torturada por ‘ideologia de gênero’”, afirma Fabíola.
Mesmo antes da aprovaçăo da polêmica Escola sem Partido, o Projeto de Lei nº 7180/14, programa que proíbe “doutrinaçăo ideológica” em sala de aula, professores relatam assédio de alunos, pais e até colegas de profissăo. “Eu năo concordo com doutrinaçăo, năo acho que sala de aula é palanque. Mas as coisas tomaram uma proporçăo assustadora. A escola é, ou deveria ser, um ambiente de livre debate. Aí, você dá uma aula sobre direitos civis, sobre voto feminino, e te acusam de ideologia de gênero, uma coisa que nem existe”, revolta-se. Além de perseguiçăo, ela diz que, entre os professores, o temor é de processos e, especialmente nos estabelecimentos particulares, de demissăo.
Na semana passada, procuradores dos direitos dos cidadăos instauraram procedimentos administrativos para acompanhar episódios de assédio moral contra professores de nível básico, técnico e superior em 10 estados. De acordo com o Ministério Público Federal, entre 5 e 9 de novembro, o órgăo abriu açőes do tipo em quase todas as capitais e em diversos municípios. Vinte e quatro instituiçőes públicas receberam recomendaçăo do MPF para năo atuarem de forma abusiva contra os docentes em Pernambuco, Santa Catarina, Paraíba, Goiás, Minas Gerais, Tocantins, Amapá, Paraná, Rio Grande do Norte e Rio Grande do Sul.
Ensino plural
Contrária à criaçăo da Escola sem Partido, que considera inconstitucional, a procuradora federal dos Direitos do Cidadăo, Deborah Duprat, afirma que tentar impedir a abordagem e o debate de ideias, sejam filosóficas, religiosas, políticas, sejam ideológicas, viola a legislaçăo. “Um ensino e uma aprendizagem efetivamente plurais, que săo os objetivos fundamentais de nosso sistema educacional, somente podem se desenvolver em um ambiente de liberdade de ideias e de respeito à imensa diversidade que caracteriza o nosso país”, defende.
Um dos estados acionados, Pernambuco foi palco de ameaças contra professores e estudantes do Centro de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal. No dia 6, uma carta năo assinada listava “doutrinadores e alunos que serăo banidos do CFCH-UFPE em 2019”. O texto, afixado na instituiçăo e reproduzido em redes sociais, chamava as pessoas listadas de escória e anunciava: “O mito vem aí”, em referência ao presidente eleito, Jair Bolsonaro. O futuro governante é um entusiasta do PL da Escola sem Partido e defende que os estudantes filmem os professores em sala de aula. O MPF e a Polícia Federal investigam ameaças.
Medo
Paulo aceitou falar com a reportagem sob várias condiçőes: nome fictício, năo fornecer idade nem disciplina que ministra. Professor em uma escola de classe média alta em Brasília, ele teme ser identificado e perder o emprego. Conta que a direçăo alertou os funcionários para evitarem “assuntos sensíveis”, incluindo feminismo, sexualidade, aborto e, especialmente, política. “Um professor de física ou de matemática pode se adaptar a essa mordaça com mais facilidade. Mas como um professor de humanas vai fazer?”, questiona.
Ele ressalta que, no colégio onde trabalha, mesmo antes das discussőes do Escola sem Partido, muitos alunos intimidavam os professores. “Eles pagam, eles mandam, né?”, ironiza. “Eu năo cheguei a ser diretamente atacado por alunos, embora tenha colegas que foram, inclusive foram filmados pelos estudantes na maior cara de pau. Você já vai trabalhar naquele clima de terror. Como é que você vai educar alguém assim?”.
Lei em discussăo
A comissăo especial que analisa a lei da Escola sem Partido (7180/14) năo votou o substitutivo do relator, deputado Flavinho (PSC-SP), na semana passada. O relatório do parlamentar mantém a proibiçăo de professores do ensino básico e superior promoverem suas preferências ideológicas, religiosas, morais, políticas e partidárias. Também proíbe ensinamentos sobre gênero e orientaçăo sexual. “O nosso projeto năo diz que năo possam ser ensinadas e debatidas. Diz que essas questőes devem ser abordadas cientificamente, mostrando dois, três lados, as principais correntes acerca da ideia”, defendeu o fundador do movimento Escola Sem Partido, Paulo Miguel Nagib.
Cartilha de orientaçăo na Bahia
Na sexta-feira, o Sindicato dos Professores das Instituiçőes Federais de Ensino Superior da Bahia lançou uma cartilha para orientar os professores a se protegerem de situaçőes de intimidaçăo e assédio. “A cartilha foi motivada pelo momento de lamentáveis retrocessos, a educaçăo e a atividade docente, assim como os movimentos sindicais e sociais, têm sido os primeiros alvos”, justifica a assessoria de comunicaçăo do sindicato. A Confederaçăo Nacional dos Trabalhadores em Educaçăo (CNTE) se manifestou em nota sobre o projeto de lei: “A lei da mordaça se pauta em conceitos e critérios políticos, sociais e pedagógicos diametralmente opostos aos estabelecidos na Constituiçăo Federal e na Lei de Diretrizes e Bases da Educaçăo Nacional, que têm a gestăo democrática e o pluralismo de ideias e concepçőes pedagógicas como pilares da educaçăo”, diz.
A professora de artes da rede estadual de Pernambuco Valéria Alves de Almeida, 26 anos, teme que, se o PL for aprovado, os professores sejam mais assediados e perseguidos. “Já tem aluno olhando para você e fazendo aquele gesto de arma com as măos”, diz, em referência a um dos símbolos de campanha do presidente eleito. Ela năo acredita que os estudantes, ao menos do nível básico, sejam fechados à discussăo de ideias. Para Valéria, eles têm sofrido grande influência dos pais e das redes sociais. “Esses reacionários văo criar geraçőes de pessoas completamente submissas ao que lhes forem imposto, porque os jovens estăo sendo ensinados a năo questionar, năo pensar, năo discutir. Temos de resistir a isso, mas precisamos que as instituiçőes estejam ao nosso lado. A aprovaçăo desse projeto será catastrófica.”
Marielle Franco foi assassinada em março deste ano
A TV Globo vai recorrer da decisăo do juiz Gustavo Gomes Kalil, da 4ª Vara Criminal do Rio, que mantém a proibiçăo de divulgaçăo do conteúdo do inquérito do caso que investiga os assassinatos de Marielle Franco e Anderson Gomes, ocorridos em 14 de março deste ano. A decisăo de Gomes Kalil atende a pedido da Divisăo de Homicídios, da Polícia Civil, e do Ministério Público do estado.
O magistrado considera a divulgaçăo do conteúdo “deveras prejudicial, pois expőe dados pessoais das testemunhas, assim como prejudica o bom andamento das investigaçőes, obstaculizando e retardando a elucidaçăo dos crimes hediondos em análise”. A decisăo de Gomes Kalil proíbe a Globo de divulgar trechos do inquérito mesmo sem a identificaçăo de testemunhas.
A emissora teve acesso ao teor do inquérito policial esta semana e veiculou duas reportagens sobre o assunto nos telejornais locais do Rio de Janeiro e nacionais. A Globo recorreu da decisăo por considerar que ela fere a liberdade de imprensa e lembra que o caso é de interesse público no país inteiro e no exterior.
A Associaçăo Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) discordou da decisăo judicial e, em nota, afirmou que considera “que a decisăo do juiz viola o direito dos brasileiros à livre circulaçăo de informaçőes de interesse público. A imposiçăo de censura é uma afronta à Constituiçăo. A liberdade de imprensa, fundamental para a democracia, deveria ser resguardada por todas as instâncias do Poder Judiciário, mas é frequentemente ignorada por juízes que, meses ou anos depois, săo desautorizados por tribunais superiores.”
O narcotraficante brasileiro Marcelo Pinheiro Veiga, o Marcelo Piloto, é suspeito de ter assassinado uma jovem mulher que o teria visitado, neste sábado (17/11) no grupamento especializado da Polícia Nacional, onde está preso, em Assunçăo, no Paraguai. Conforme o jornal local ABC Color, o crime seria “uma medida extrema para evitar sua extradiçăo para o Brasil”. Ele é integrante da facçăo Comando Vermelho (CV), do Rio.
A Justiça do Rio condenou Piloto a uma pena de 26 anos de prisăo. No Paraguai, ele está preso por homicídio e falsificaçăo de documentos, mas foi aberto um processo para sua extradiçăo, atendendo a pedido da justiça brasileira.
Conforme a imprensa paraguaia, o brasileiro teria usado uma faca de sobremesa para golpear seguidamente a jovem Lidia Meza Burgos, de 18 anos, que fora visitá-lo neste sábado. A vítima é da cidade de General Resquín, no departamento de San Pedro. O assassinato da mulher foi confirmado pelo chefe do grupamento, Germán Real Medina.
Após ouvir gritos, os agentes foram ao local e encontraram a mulher ensanguentada. A vítima chegou a ser levada para o Hospital de Barrio Obrero, em Assunçăo, mas năo resistiu. O corpo passou por perícia e foi levado ao necrotério oficial.
De acordo com a imprensa paraguaia, o assassinato seria uma “estratégia macabra e desesperada” do narcotraficante para barrar sua extradiçăo para o Brasil, já que todas os recursos judiciais foram esgotados sem sucesso. Nesta sexta-feira (16/11), a Justiça havia negado pedido da noiva de ‘Piloto’, Marisa de Souza Penna, também reclusa em estabelecimento penal, que pretendia casar-se com ele na prisăo. O casamento com uma paraguaia poderia dificultar a extradiçăo.
Antes ‘Piloto’ havia dado uma entrevista denunciando o pagamento de propinas a autoridades policiais paraguaias em troca de proteçăo. A advogada dele, a argentina Laura Marcela Casuso, que organizou a coletiva, foi assassinada a tiros, na segunda-feir (12/11), em Pedro Juan Caballero, na fronteira com o Brasil.
As autoridades paraguaias também divulgaram neste mês um vídeo em que o CV ameaça matar a procuradora-geral do Paraguai, Sandra Quińonez, em represália à açăo dela pela extradiçăo de Marcelo Piloto. Se confirmada a autoria do assassinato, Piloto terá de responder ao inquérito, dificultando a extradiçăo.
Pelas redes sociais, o prefeito de Chapada (RS), Carlos Alzenir Catto (PDT), convidou o médico cubano Richel Colazzo para ser o secretário de Saúde do município. A decisăo foi tomada na quarta-feira (14/11) após o Ministério da Saúde de Cuba requerer o retorno de todos os profissionais que atuam no Brasil pelo programa Mais Médicos.
Colazzo, de 36 anos, trabalha há quatro anos em um posto de saúde de Chapada, município de cerca de 9,3 mil habitantes do norte do Rio Grande do Sul. Em entrevista ao site G1, o prefeito afirmou que a cidade tem apenas três médicos, dos quais o cubano é o único vinculado ao Mais Médicos. “(Ele) está muito bem inserido na comunidade. O pessoal tem gostado do atendimento”, declarou.
O município enfrenta dificuldades para contratar médicos. Em 2018, ninguém se candidatou para um concurso público que oferecia vagas com salário de cerca de R$ 11 mil. No fim de outubro, o prefeito chegou a viajar à Brasília para solicitar o envio de profissionais de saúde pelo Mais Médicos.
Em entrevista à Rádio Gaúcha, Colazzo disse que estuda aceitar a proposta. “Se eu năo conseguir ficar como médico, vou aceitar”, declarou. “Pra mim, foi uma notícia muito ruim (o fim do convênio). Eu ainda estou processando tudo isso. Bateu de frente com todos os planos que nós tínhamos construído.”
Segundo o médico, o seu salário em Cuba como profissional do sistema de saúde pública é o equivalente a R$ 300. “Ninguém vem de Cuba para cá enganado. Todo mundo sabe o que vai ganhar e a parte com a qual o governo vai ficar.” Ele é casado desde 2016 com a brasileira Graciela Luísa Frühauf, que é estudante de Administraçăo.
“Prefeito Municipal, Carlos Alzenir Catto, tomando conhecimento da Declaraçăo emitida pelo Ministério da Saúde de Cuba, no dia de hoje, 14 de novembro – que solicita o retorno dos médicos ao seu país de origem – convidou o Dr. Richel Collazo, médico cubano atuando no Município de Chapada a assumir a Secretaria Municipal da Saúde, acreditando na capacidade e no profissionalismo já demonstrado pelo médico em nosso município”, diz publicaçăo da Prefeitura no Facebook.
Até as 22 horas de sexta-feira (16/11), a publicaçăo teve 392 curtidas e 75 compartilhamentos. A maioria dos comentários é de aprovaçăo. “Várias vezes levei meus familiares à unidade de saúde atendida pelo Richel e várias vezes comentei que estava impressionada com a agilidade, a preocupaçăo, a responsabilidade com que atendia os pacientes”, escreveu uma moradora da regiăo. “Parabéns, uns dos melhores médicos que nós já tivemos aqui, no nosso município”, escreveu outro morador.
Além de Colazzo, outros 624 médicos cubanos atuam em mais de 380 municípios gaúchos.
Em Paracatu de Baixo, o “cenário de hecatombe” descrito pela jornalista: as vítimas săo os narradores (foto: Yasuyohsi Chiba/AFP)
Toda história precisa de grandes e medíocres personagens. O desastre da barragem do Fundăo, em Mariana (MG), está repleto deles. De todos os tipos, dos mais corajosos — que arriscaram a vida em nome de outras pessoas — aos mais covardes, aqueles que tiveram alguma responsabilidade, inclusive cientes de riscos, ou se omitiram na tragédia ambiental, ocorrida há três anos. A jornalista Cristina Serra conseguiu identificar cada um desses perfis e contou, a partir de um quebra-cabeças medonho, uma das mais tristes, e ao mesmo tempo, heroica, histórias do país.
No próximo dia 22, às 19h, na livraria Leitura do Píer 21, Cristina lança o livro Tragédia em Mariana: a história do maior desastre ambiental do Brasil (Editora Record). A obra é uma grande reportagem, com toda sensibilidade envolvida. O cuidado da repórter com as vítimas é absoluto, a partir de uma relaçăo poucas vezes vista entre autor e personagens. O jornalismo pode ser produzido entre o rigor da informaçăo e a emoçăo dos relatos — neste caso, distante de pieguismos ou construçőes baratas. O ponto mais importante de Cristina, entretanto, foi năo cair nas armadilhas armadas para repórteres incautos, que tentam se transformar em protagonistas e se esquecem as liçőes de John Hersey, o autor de Hiroshima: năo existe nada mais estúpido do que autorreferências.
Um dos mais importantes exemplos de jornalismo literário, o livro de Hersey conta como a bomba atômica trucidou a cidade japonesa de Hiroshima, em 1945, a partir dos olhos e ouvidos de seis personagens. O texto mistura as histórias dos sobreviventes de uma maneira inovadora, muitas vezes tentadas e poucas vezes conseguida por outros autores. Cristina năo tem tal pretensăo, ao contrário, o que só reforça a força da escrita. Mas, de alguma forma, a cidade japonesa está presente.
“A gente viu um cogumelo de fumaça, parecia fumaça, mas era poeira subindo, uma poeira marrom, alaranjada… Sabe Hiroshima e Nagasaki? Parecia que uma bomba tinha explodido ali”, relatou o major da Polícia Militar Alex Chinelato, comandante do primeiro helicóptero de salvamento que chegou a Mariana, às 17h40 do dia da tragédia, em 5 de novembro de 2015. A aeronave pousou em Paracatu de Baixo. Em pouco tempo, apenas 10 minutos, a lama que havia devorado Bento Rodrigues atingiria o outro distrito. O trabalho, entăo, era avisar os moradores para que abandonassem as casas.
Mensageiros
(foto: Editora Record/Divulgaçăo)
“Eles (os moradores) nem imaginavam que nós éramos mensageiros de uma desgraça”, contou Chinelato. O lugar mais alto era o cemitério. “O que vimos foi desespero e incredulidade. Um senhor disse: ‘Essa lama só vai chegar aqui amanhă’. Peguei ele pelos ombros e gritei: ‘Vai embora, sobe, vai para o cemitério, senăo você vai morrer.’ Foi o conselho mais contraditório que eu dei na vida, mandar uma pessoa para o cemitério para que ela năo morresse”, lembrou Chinelato, em entrevista a Cristina. De imediato, a lama deixou 19 mortos e destruiu os subdistritos de Bento Rodrigues e Paracatu de Baixo, em Mariana. Os efeitos, entretanto, se perpetuam.
O grande caldo venenoso que desceu do reservatório da Samarco viajou pelos ribeirőes e rios Gualaxo, Carmo, Piranga e Doce por 660km até o mar do Espírito Santo, levando destruiçăo por onde passou até as cidades de Risoleta Neves, Baguari, Mascarenhas e Aimorés. “Por onde passava, a enxurrada deixava uma camada de rejeitos depositados nas margens dos rios que, com o tempo, ficaria endurecida como se o solo tivesse sido cimentado. Era um cenário de hecatombe”, descreve Cristina, que avança até os dias atuais, onde uma segunda tragédia se abate para o povo da regiăo: o desemprego que chegou com as dificuldades da Samarco. A repórter também volta a dois personagens emblemáticos: Romeu Arlindo dos Anjos e Paula Geralda Alves. Enquanto um conseguiu sobreviver ao sair do mar revolto de lama, a outra salvou parte da populaçăo de Bento Rodrigues ao percorrer as ruas da cidade numa moto. Avisava sobre a morte que descia o rio.
Trecho do livro
“De dentro do carro, ele observou a pasta de resíduos, que vinha da usina. Ouviu um estrondo, como se fosse um rugido das profundezas da terra. Olhou para o reservatório e viu a massa de rejeitos mover-se como uma gelatina. Em poucos minutos, a barragem estourou por completo e a lama armazenada começou a pôr-se em movimento. Romeu travou por 10 segundos, com as măos no volante. Achou que estava passando mal. Era como se o mundo se desintegrasse. O solo se desfazia em pedaços. Ele tirou o cinto, abriu a porta, desceu correndo. Viu a caminhonete tombando”
Hoje, Rose dá aulas de história e aproveitou uma apresentaçăo na escola para retomar a carreira (foto: Arquivo pessoal)
As bandas de baile do Distrito Federal brilharam entre as décadas de 1970 e 1990. Se o leitor nasceu depois disso, talvez năo saiba nem o que é uma banda de baile, mas, provavelmente, já ouviu algum desses grupos no palco de uma formatura, em um evento corporativo ou em um casamento, tocando um pouco de tudo: do pop ao forró, do jazz ao axé e do sertanejo ao rock. Por trás dessas animadas apresentaçőes está a história de Rose Galvăo, 50 anos, uma das principais vozes da época, que, agora, promete voltar aos palcos.
Filha de militar, Rose Galvăo nasceu no Rio de Janeiro, em 1968. Mudou-se para Brasília, em 1974, quando o pai foi transferido para a capital. Uma época de repressăo política e social, mas sem marcas profundas para ela. “Eu vivi a parte ‘feliz’ da ditadura. Tive uma boa infância”, lembra. Mas se as notícias de desaparecidos e torturas năo frequentavam a casa de Rose, a disciplina militar, ditada pelo pai, entăo tenente da Aeronáutica, a acompanhou durante toda a vida.
Quando criança, Rose sonhava em ser artista. “Eu me olhava no espelho e ficava cantando para me sentir cantora”, recorda. Aos 16 anos, fazia, semanalmente, um percurso de casa, no Guará, até Taguatinga, onde tinha aulas de inglês. “Certo dia, ouvi uma música ali perto do cursinho. Descobri que uma banda ensaiava e tocava por ali”, conta. A moça, entăo, passou a acompanhar os ensaios e, ousadamente, se disponibilizava para cantar. “Olhem, eu sou cantora, se precisarem…”. Rose, no entanto, nunca havia cantado, a năo ser em frente ao espelho.
“Aconteceu que o grupo se dividiu. Um dos líderes criou outra banda, a Tropical, e me chamou para ser vocalista”. O maior desafio, no entanto, năo era a falta de preparo e experiência, mas convencer o pai, Bartolomeu Souza, a deixá-la cantar. “Meu pai achava que cantoras eram prostitutas drogadas. Ele disse que, de forma alguma, me deixaria cantar”, relata. Após muita insistência, o pai prometeu que ela poderia subir aos palcos, mas só depois que passasse no vestibular. Ela estudou e entrou na faculdade, porém, a promessa năo foi cumprida.
Rose năo desistiu. “Disse para ele que ia sair de casa, viver minha vida e realizar meus sonhos. Nesse momento, ele me agrediu”, lembra, com tristeza. Hoje, Rose enxerga que aquele foi uma atitude pontual. No fim, o carinho do pai pela filha se mostrou maior que o conservadorismo. O tenente Souza deu permissăo para que ela entrasse na banda, desde que a măe, dona Nádia, a acompanhasse nos bailes. As bandas de baile estavam em alta. Os palcos eram os clubes, tanto os particulares — Minas Brasília e Iate Clube, no Plano Piloto; Primavera e City, em Taguatinga — quanto os de associaçőes de funcionários públicos.
A banda Tropical se tornou um dos maiores sucessos das décadas de 1980 e 1990. Rose guarda com carinho as inúmeras matérias jornalísticas que comprovam o triunfo do grupo na época. “Uma vez, em 1987, fizemos um show enorme no ParkShopping. Minha măe conta que meu pai, orgulhoso, apontava para mim e dizia para todos que aquela no palco era a filha dele”, diz. Foi a única apresentaçăo presenciada por seu Bartolomeu. Ele morreu três anos depois, de aneurisma abdominal, feliz da vida com o sucesso da filha.
Professora
Após a segunda gravidez, a artista precisou fazer uma pausa na carreira. Atualmente, é professora de história no Centro de Ensino Fundamental 18, em Ceilândia. Na escola, Rose é a responsável pelo projeto Africanidades: consciência de quê?, com o objetivo de desmistificar paradigmas e mostrar que a responsabilidade em combater o racismo é de todos.
A última ediçăo do trabalho, em 10 de novembro, foi marcada por uma apresentaçăo da discente, que chamou a atençăo de alunos e colegas. “No dia seguinte, todos me perguntavam por que eu estava escondendo esse talento deles”, sorri. A chama artística reacendeu em seu interior. Rose, agora, promete voltar aos poucos e mostrar a que veio. “O verdadeiro sentido da minha vida é a música. Quero, com isso, atingir positivamente também a vida dos meus alunos. A arte, aliada à educaçăo, transforma vidas”, finaliza.
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* Estagiária sob a supervisăo de Leonardo Meireles
Córrego transbordou e causou estragos na pista, em Vicente Pires (foto: Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press)
A chuva na manhă desta sexta-feira (16/11) provocou transtornos no trânsito em diversos pontos do Distrito Federal. No mais grave deles, um córrego transbordou na Estrada Parque Vicente Pires (EPVP) e um grande engarrafamento se formou no local.
O incidente aconteceu no trecho que passa por trás de Águas Claras e que dá acesso à Estrada Parque Taguatinga (EPTG) na altura do Viaduto Israel Pinheiro. A água tomou os dois sentidos da pista.
O Corpo de Bombeiros cuida do isolamento do local. Nenhum carro foi atingido, mas a via ficou completamente interditada. Por causa dos estragos causados pela chuva, o Departamento de Estradas e Rodagem (DER) liberou a faixa exclusiva da EPTG e da EPNB para todos os carros.
A água erodiu a terra do lado esquerdo da ponte, destruindo parte da ciclovia, e, na parte central da via, o lado direito. Às 8h, a correnteza no corrego ainda era forte. Veja o vídeo
Quem mora ou passa pela ponte que alagou e erodiu na EPVP diz que a formaçăo de crateras nos arredores da edificaçăo săo comuns após a chuva e que há três semanas o GDF já havia jogado terra no local.
O comerciante Paulo Pereira, 40 anos, mora em uma chácara bem ao lado da ponte. Ele acredita que o desastre já era esperado, pois o volume do córrego Samambaia subiu por receber o esgoto e a captaçăo de água pluvial de Samambaia e Águas Claras.
“O córrego também está erodindo um pedaço do nosso terreno. Toda chuva, abre um buraco ao lado do viaduto. Só que, dessa vez, foi mais forte. A ultima reposiçăo de terra que fizeram năo tem três semanas”, relatou Paulo.
E na Estrada Parque Indústria e Abastecimento (Epia) Norte, a quantidade de água na pista também mobilizou agentes do DER. Segundo informaçőes da comunicaçăo do órgăo a faixa inversa da rodovia foi interditada temporariamente.
Na regiăo há muito concreto e asfalto. Portanto, pouca permeabilidade do solo. Neste momento, segundo o agente do DER Hélio Brasil, duas faixas da EPVP estăo liberadas em ambos os sentidos.
Depoimentos
Quem mora ou passa pela ponte que alagou e erodiu na EPVP diz que a formaçăo de crateras nos arredores da edificaçăo săo comuns após a chuva e que há três semanas o GDF já havia jogado terra no local.
O comerciante Paulo Pereira, 40 anos, nora em uma chácara bem ao lado da ponte. Ele acredita que o desastre já era esperado, pois o volume do córrego Samambaia subiu por receber o esgoto e a captaçăo de água pluvial de Samambaia e Águas Claras.
Ainda há risco de novos desabamentos na erosăo ao lado da ponte da Estrada Parque Vicente Pires (EPVP). Segundo Márcio Buzar, diretor do Departamento de Estradas de Rodagem, funcionários do órgăo terăo que escavar a terra para recompor a estrutura ao lado da edificaçăo no sentido Águas Claras.
Os técnicos dos órgăos ainda avaliam quanfo as vias serăo liberadas. A Defesa Civil e o DER chegaram a cogitar o risco de afundamento da base da ponte na via de sentido oposto. Mas descartaram a possibilidade. O local também receberá um reforço de terra e pedras.
Buzar disse que parte do problema ocorreu porque dois canos da Companhia de Saneamento Ambiental que passam sob a ponte na via sentido Águas Claras diminuem o espaco de passagem abaixo da pista. As estruturas acumularam grande quantidade de árvores, mato e lixo arrastados pela força da correnteza, formando uma barreira que impediu parte da vasăo da água.
Apesar dos estragos, o diretor do DER afirmou que é uma obra simples. O DER e a Defesa Civil pediram para a Caesb retirar o encanamento, mas năo há previsăo para esta obra. “Os canos (da Caesb) serviram como uma barreira. A natureza está mudando também. Năo tem jeito. Essa noite choveu muito. Ininterruptamente”, disse.
“O fato de o rio receber a água pluvial de Águas Claras e Vicente Pires também interfere. Bem como a ocupaçăo desordenada do solo, que impermeabiliza a regiăo e a água năo entra no solo e escoa pra onde dá. Já havíamos feito a recomposiçăo de terra antes. Vamos ter que escavar para saber o quanto de terra foi perdido e só podemis reforçar a partir do ponto em que a terra estiver firme”, detalhou Buzar.
Viaduto cede e interdita trânsito na Marginal Pinheiros, em Săo Paulo (foto: Reproduçăo/TV Globo)
Problemas em pontes e viadutos năo săo novidade na capital paulista. Prefeitura e Ministério Público Estadual (MPE) firmaram em 2007 um Termo de Compromisso e Ajustamento de Conduta (TAC) para implementar um programa de manutençăo permanente dessas estruturas. O município se comprometia a realizar anualmente a reforma de pelo menos sete pontes ou viadutos, atingindo 50 obras até 2017, além de inspeçőes rotineiras.
O TAC năo foi cumprido e, em 2014, a Promotoria multou a Prefeitura em R$ 34 milhőes. Agora o município negocia com o MPE um novo acordo e propôs que o valor da multa seja convertido em obras de manutençăo e recuperaçăo de pontes e viadutos, segundo a gestăo Bruno Covas (PSDB).
Em abril de 2017, o Sindicato Nacional das Empresas de Arquitetura e Engenharia Consultiva (Sinaenco) fez análise de 73 viadutos e pontes de Săo Paulo. Em todos, detectou problemas – grande parte nas juntas de dilataçăo, como infiltraçăo, fissuras e até preenchimento irregular de concreto. O relatório ajudou a Prefeitura selecionar as 33 estruturas com maior demanda para lançar este mês o edital de projetos de reparos.
Recorrente
Em novembro de 2017, um bloco do Viaduto Fepasa, na Avenida do Estado, regiăo central, desabou sobre o carro da juíza Adriana Nolasco, que morreu. “Năo precisa cair um viaduto para provocar uma tragédia. Basta cair um pedaço do concreto”, destaca Gilberto Giuzio, diretor do Sinaenco.
Algumas estruturas tiveram mais de um problema nos últimos anos. A Ponte dos Remédios, zona oeste, por exemplo, teve ao menos dois: em 2011, um pedaço de 30 metros da parte lateral caiu sobre o Rio Tietê; em 1997, uma rachadura já havia surgido no local. As informaçőes săo do jornal O Estado de S. Paulo.
Rios Corumbá, Maranhăo e Preto (foto) devem ser afetados pela mudança proposta (foto: Minervino Junior/CB/D.A. Press – 16/3/2018)
Em três anos, quem usar a água dos rios Corumbá, Maranhăo e do Rio Preto terá que pagar. A norma valerá para quem captar o recurso para o turismo, a irrigaçăo, a criaçăo animal e aquicultura. A notícia foi divulgada nesta quinta-feira (15/11) pela Agência Reguladora de Águas, Energia e Saneamento Básico (Adasa). O objetivo, segundo a agência, é melhorar a política hídrica do Distrito Federal e os investimentos no setor.
A cobrança pelo uso da água dos rios está previsa na Constituiçăo Federal e é adotada em estados como Ceará, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul. O dinheiro deve ser investido na recuperaçăo das bacias hidrográficas e no desenvolvimento econômico das áreas que abrigam esses mananciais. Antes da implementaçăo da medida, a Adasa promoverá discussőes com os comitês de bacias hidrográficas do DF.
As águas subterrâneas armazenadas sob territórios e as águas superficiais inseridas totalmente nos corpos de água, da nascente à foz, pertencem aos estados e ao Distrito Federal. As demais águas săo da Uniăo, nas quais se incluem as dos rios que fazem limites entre duas unidades federadas e que ultrapassam as fronteiras nacionais ou internacionais. Segundo a Constituiçăo, a cobrança sobre as águas dos estados está autorizada às unidades da Federaçăo.