Isso também poderia ser um mau negócio. Segundo Fatemeh Khatibloo, analista da consultoria Forrester, uma das mais respeitadas dos EUA, se empresas como o Facebook estivessem escutando conversas secretamente, todo o mercado de publicidade seria prejudicado.
O fato é que compartilhamos mais informações com as empresas do que às vezes sabemos ou percebemos.
Além dos dados que coletam, elas conseguem informações submetidas por anunciantes. Se você se cadastrou em um serviço para receber benefícios de uma empresa, isso vai para uma base de dados — que pode ser inserida no Facebook, por exemplo, para direcionar publicidade para você.
De acordo com o Facebook, isso acontece sem que os anunciantes saibam quem você é.
Sabe quando você está procurando por um tênis e depois ele aparece em todos os sites que você acessa?
É por causa de ferramentas como o Adsense, do Google, e Pixel, do Facebook, que mapeiam nossos passos on-line, cliques e até compras.
“O Google não coleta conversas por meio de microfones de dispositivos para fins publicitários”, declarou a empresa em nota. “O Assistente apenas envia o áudio para o Google depois que o dispositivo detectar que você iniciou uma interação. Por exemplo, ao dizer ‘Ok Google’ ou ao ativar manualmente o Assistente”.
“[Usamos] as páginas que você segue, as informações que você coloca em seu perfil, e os posts e anúncios com os quais você interage, por exemplo, além do público para o qual o anunciante quer que os seus anúncios sejam mostrados”, disse o Facebook ao G1.
As empresas pode saber até como nos movimentamos. No exterior, o Uber, por exemplo, tem um sistema que mede as informações disponibilizadas pelo GPS, acelerômetro, giroscópio e outros sensores dos smartphones do passageiro e do motorista para detectar uma freada brusca e possível batida.
Nesses casos, envia uma notificação que, entre várias opções, permite até ligar para a polícia. O Google está trabalhando em uma funcionalidade semelhante.
Se você se surpreendeu com o tanto que as empresas sabem sobre a sua vida, saiba que a sensação é compreensível. Para André Ferraz, presidente da InLoco, empresa brasileira que trabalha com dados de geolocalização para publicidade e segurança, falta transparência para que o usuário saiba exatamente quais informações são coletadas e como são utilizadas.
“Como nós criamos mecanismos em que a sociedade consiga auditar os dados coletados e para onde ele está sendo enviado? É muito difícil para o consumidor fazer isso”, disse.
É por isso que os dados coletados são, ao mesmo tempo, os principais ativos e os principais riscos, segundo Rohit Ghai, presidente da empresa de segurança digital RSA, subsidiária da Dell.
“Ser transparente com os dados é obrigatório para as empresas hoje. É uma questão complicada, o consentimento precisa conviver com um consumidor bem informado”, afirmou Ghai.
O que as empresas sabem?
O Facebook conta com uma página com informações de preferências de anúncios, que mostra o que a plataforma sabe sobre o usuário.
Para acessar, clique no menu do Facebook:
- Depois, clique em “configurações”;
- E então em “anúncios”.
Nessa página do Google é possível:
- Fazer o check-up de privacidade e decidir quais dados você quer que o Google colete;
- Ver as configurações de “Privacidade e personalização” e também o “Controle de atividade”. Nessa aba é possível ter acesso aos históricos de dados coletados;
- Acessar a “Personalização de anúncios“, que mostra os interesses que o Google já mapeou e uma opção para desativar essa configuração.
Sem confiar nas declarações de Google e Facebook, pessoas e empresas já fizeram testes para tentar aferir se existe alguma escuta escondida.
A companhia britânica de segurança digital Wandera, especializada em gerenciamento de dados em celulares, fez um teste com rigor científico usando smartphones.
Dois aparelhos foram isolados em uma sala e submetidos a uma playlist de vídeos sobre alimentos para animais de estimação. Outros dois eram mantidos em silêncio, numa outra sala.
No fim, a Wandera acessou redes sociais nesses aparelhos e não encontrou publicidade sobre o tema dos áudios. Os aplicativos não estavam ativando os microfones sozinhos e não foram encontrados indícios de consumo maior de dados, nem de bateria.
Resultado semelhante foi encontrado pela analista da consultoria Forrester, Fatemeh Khatibloo. Após receber reclamações de mais de 20 colegas de trabalho sobre supostas escutas, ela também mediu tráfego de dados em aparelhos com permissão de acesso ao microfone e não encontrou mudanças na quantidade de dados.