Mato brota nas ruínas de Bento Rodrigues, comunidade devastada pelo rompimento da Barragem de Fundăo (foto: Leandro Couri/EM/D.A PRESS)
O tsunami de rejeitos de minério de ferro que varreu o vilarejo de Bento Rodrigues, no município de Mariana, na Regiăo Central de Minas, também engoliu cerca de 80% da vila de Paracatu de Baixo, que ficava rio abaixo. Hoje, exatamente três anos depois da maior tragédia socioambiental brasileira, o cenário nas áreas atingidas desses dois subdistritos é semelhante. O rejeito que cobriu ruas, quintais e residências, atualmente está sob um tapete de mato e capim. Um verde que extravasa pelas portas, janelas e telhados, servindo de abrigo para animais peçonhentos como escorpiőes e aranhas.
No meio desse terreno desolado, onde até nascentes de água foram soterradas, apenas um morador ainda insiste e com seu suor consegue retirar o sustento da família de sua pequena rocinha em Paracatu de Baixo. Obstinado, o produtor rural Corjesus Mol Peixoto, de 56 anos, é também o único que ainda produz dentro do marco zero dessa devastaçăo. “A lama destruiu a parte de baixo do terreno, onde tinha capim. Eu tinha 12 vacas. Hoje, năo tenho nenhuma, só sete bezerros que crio na parte de cima. Mas preciso de vir tratar deles todos os dias (a Renova fornece silagem e raçăo), porque năo tem mais pastos”, conta.
Devastaçăo
Os animais só sobreviveram porque a notícia de que a lama estava vindo chegou antes, permitindo salvar o gado de leite. Mas os impactos na vida do produtor foram devastadores. “Năo tiro mais leite, porque năo tenho mais onde guardar (estocar) nem transportar. Minha mulher é professora na escola. Como a escola foi para Mariana, ela năo vem mais aqui comigo. Meus filhos também conseguiram trabalho na cidade. Por isso, há dias que quem fica aqui sou só eu e meus bezerros”, disse. Apesar de sua tenacidade, o produtor rural já admite abandonar Paracatu de Baixo. “Aqui, năo tem mais jeito năo, teremos de viver em outro lugar mesmo. Começar de novo, ter as vacas de novo. A vida era tranquila, muito pacata. Em volta da minha casa viviam umas cinco famílias de parentes, todos meus vizinhos”, lembra. Os habitantes de Paracatu de Baixo escolheram uma área rural a seis quilômetros de lá, chamada Lucila e que vai receber cerca de 120 famílias.
Apesar de haver locais onde as atividades tradicionais e a natureza parecem ter sido completamente devastadas, aos poucos o meio ambiente e algumas açőes da Fundaçăo Renova e outras instituiçőes conseguem restaurar parte dos ecossistemas. Para a recomposiçăo da bacia atingida dos rios Gualaxo do Norte, do Carmo e Doce, a Fundaçăo dividiu a área total em 17 trechos, desde a barragem rompida até o mar. Em cada área uma soluçăo diferente vai ser implementada (veja mapa). “Há locais nos quais a retirada dos rejeitos poderá trazer um impacto ainda maior para a natureza. Temos de levar em conta a movimentaçăo de caminhőes, a geraçăo de poeira e a destinaçăo do rejeito removido para um local adequado. Uma parte desse rejeito já está estabilizada, com uma camada de sedimentos e até mesmo de vegetaçăo que naturalmente recobriu tudo”, afirma a líder do programa socioambiental da fundaçăo, Juliana Bedoya.
Ao mesmo tempo, também foram indicados locais onde a remoçăo dos rejeitos da natureza deve ocorrer para impedir que esse material seja reintroduzido nos recursos hídricos com as chuvas. “Um exemplo disso é a cachoeira de Camargos (pequeno povoado perto de Bento Rodrigues). Eles perderam um ponto tradicional deles. Vamos remover o rejeito e recuperar a cachoeira. Pediram área de camping e uma praia artificial. Vamos moldando isso e promovendo a retirada de rejeito”, disse.
Um dos “laboratórios” onde a Fundaçăo Renova testa essas medidas de recuperaçăo ambiental é o chamado Trecho 8, um segmento de nove quilômetros entre os vilarejos de Bento Rodrigues e Bicas que foi soterrado por uma carga impressionante de 500 mil metros cúbicos de rejeitos (cerca de 2,5% do total despejado entre a barragem e a Represa de Candonga). É nesse local que os impactos e experiências săo observados, bem como a regeneraçăo natural e a necessidade de replantio. Ao todo, a barragem rompida deixou escapar 40 milhőes de metros cúbicos, sendo que 6,5 milhőes ainda estăo em Fundăo.
Quase 30% dos moradores sofrem com depressăo (foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil)
“Eu cheguei a um quadro alguns meses atrás que parecia que viver ou morrer era a mesma coisa. Perdi a vontade, a perspectiva foi a zero. Mas quando tenho esses pensamentos, eu lembro do meu pai que está com 88 anos e vai precisar muito de mim ainda. Nós morávamos a 10 metros de distância. Hoje ele está em outra casa, e eu estou a dois quilômetros dele. Ele chora por causa dessa situaçăo e aquilo corta o coraçăo da gente.”
O depoimento de Romeu Geraldo de Oliveira, 43 anos, é apenas um de vários relatos de depressăo entre os moradores atingidos pelo maior desastre ambiental já ocorrido no Brasil e que, nesta segunda-feira (5/11), completa três anos. Ele morava no distrito Paracatu, em Mariana (MG), quando a lama de rejeitos que escapou da barragem da mineradora Samarco devastou toda a comunidade.
Romeu disse que só melhorou depois de procurar apoio profissional. “Eu sou muito calado, năo tenho aquela iniciativa de procurar alguém para desabafar. E acabo segurando para mim. Mas chegou um ponto que eu năo estava aguentando. E o atendimento psicológico tem me ajudado demais”, relata.
Estudo
Em abril deste ano, a Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) divulgou um estudo sobre a saúde mental dos atingidos na tragédia. O levantamento mostrou que quase 30% deles sofrem com depressăo. O percentual é cinco vezes superior ao constatado na populaçăo do país. Segundo a Organizaçăo Mundial de Saúde (OMS), em 2015, 5,8% dos brasileiros tinham depressăo.
Os resultados do estudo apontaram ainda para o diagnóstico de transtorno de ansiedade generalizada em 32% dos entrevistados, prevalência três vezes maior que a existente na populaçăo brasileira. Índices preocupantes também foram constatados em relaçăo ao risco de suicídio e ao uso de substâncias psicotrópicas, como álcool, tabaco, maconha, crack, cocaína.
O estudo foi conduzido em parceria com a Cáritas, entidade escolhida pelos atingidos que moram em Mariana para prestar assessoria técnica no processo de reparaçăo.
“O ócio é muito triste. As pessoas estăo em um processo de adoecimento porque, na cidade, o modo de vida é completamente alterado. E além de terem perdido suas atividades cotidianas, os vizinhos năo se encontram mais. Drogadiçăo, alcoolismo, depressăo. Algumas situaçőes já existiam na comunidade, mas foram aguçadas após o rompimento da barragem”, diz Ana Paula dos Santos Alves, assessora técnica da Cáritas.
Problemas de saúde
Em Gesteira, distrito de Barra Longa (MG), a situaçăo năo é diferente. A lama que alcançou a comunidade através do Rio Gualaxo do Norte também trouxe impactos para além da destruiçăo das casas. “Subiu a pressăo, começou a ter problema no coraçăo, está tomando um punhado de remédios”, conta Pedro Estevăo da Silva, 54 anos, sobre sua măe, que perdeu o lote onde tinha uma horta.
Antônio Marcos da Costa também está lidando com as complicaçőes na saúde de sua măe. “Ela já morava na parte alta de Gesteira, que năo foi afetada, mas tinha uma relaçăo muito forte com a casa onde eu morava, que tinha sido dos meus avós. Ela ia lá todos os dias, ajudava a cuidar da casa e do meu tio, que morava comigo e tem problemas mentais. Ela acabou tendo um problema de depressăo muito forte. E até hoje năo foi reconhecida como atingida”.
Atualmente, a măe de Antônio Marcos, de 50 anos, toma seis medicamentos diferentes e faz acompanhamento com psiquiatra particular que a atende regularmente em Ponte Nova (MG). O apoio profissional permitiu uma melhora. Segundo Antônio, as consultas tem custado R$ 350 por mês e ainda há os gastos com o transporte até o município vizinho.
“Acho que ela é até mais atingida do que eu. Eu perdi a casa, mas a saúde vem antes das questőes materiais”, diz.
A organizaçăo escolhida pelos atingidos de Gesteira para oferecer assistência técnica, Aedas, garantiu a Antônio Marcos que irá atuar pelo reconhecimento de sua măe como um dos atingidos, o que lhe garantirá tratamento e indenizaçăo.
Saúde mental
Em Mariana, a psicóloga Maíra Almeida Carvalho é uma das profissionais que vem atuando exclusivamente com os atingidos que sofreram deslocamento forçado dos distritos para a área urbana do município. Ela foi contratada pela Secretaria Municipal de Saúde em janeiro de 2016, três meses após o rompimento da barragem. O salário é pago pela Fundaçăo Renova, que firmou um compromisso judicial de suplementar os serviços de saúde pública em Mariana e em Barra Longa.
Segundo Maíra, atuam na equipe 10 profissionais, incluindo psiquiatra, assistente social, arte terapeuta, psicólogo e terapeuta ocupacional. Eles acompanham cerca de 350 famílias.
“Há uma reavaliaçăo contante junto à Secretaria Municipal de Saúde sobre a necessidade de novas contrataçőes. Atualmente é a equipe que temos e que tem dado conta de atender as demandas”, diz.
De acordo com Maíra, a atençăo profissional será necessária mesmo após o reassentamento.
A psicóloga relata que processos de adoecimento foram agravados nos períodos de maior desesperança. Ela também destaca que a saúde mental dos atingidos sofre o impacto dos conflitos familiares, das rupturas, dos processos de separaçăo, e das divergências no processo de reassentamento.
“Há um sofrimento relacionado com esse processo de adaptaçăo, com a espera pelo reassentamento, com o tempo prolongado envolvendo as negociaçőes. Alguns estăo diretamente envolvidos na luta pela garantia de direitos. É uma rotina de muitas reuniőes e compromissos, o que é cansativo”, avalia.
Na visăo do Ministério Público de Minas Gerais (MPMG), a questăo merece ainda mais atençăo. “Ajuizamos há cerca de 4 meses uma açăo especificamente sobre saúde dos atingidos. Temos audiência marcada para o dia 8 de novembro. Esperamos chegar a um acordo, mas se năo houver, mais a frente, o juiz terá que julgar”, diz o promotor Guilherme Meneghin. Segundo ele, a equipe designada está sendo insuficiente e a Fundaçăo Renova precisa ampliar os repasses ao município para novas contrataçőes.
Além do medicamento
Para a diretora-executiva de engajamento, participaçăo e desenvolvimento institucional da Fundaçăo Renova, Andrea Aguiar Azevedo, além da suplementaçăo na saúde pública dos municípios, é preciso buscar soluçőes para além dos medicamentos.
“Estamos atuando, por exemplo, através da oferta de trabalho e da socializaçăo nos espaços de convívio, como a Casa do Saber, onde os atingidos de Mariana têm a chave, podem ir lá fazer festas, reuniőes, cursos, cerimônias”, relata.
José do Nascimento de Jesus, conhecido como Zezinho do Bento, acredita que o melhor remédio é a casa pronta. Em sua opiniăo, os atrasos no reassentamento geraram desconfiança e estăo diretamente ligados a alguns casos de depressăo.
Aos 73 anos, ele é presidente da Associaçăo Comunitária de Bento Rodrigues e tem feito o esforço de ir todos os dias à obra. A reconstruçăo do distrito, cuja conclusăo era prevista inicialmente para o início do ano que vem, começou apenas em julho deste ano. A entrega está estimada para agosto de 2020.
“Se você ficar dentro de casa, a tendência é a depressăo mesmo. Eu tento motivar as pessoas. Na semana passada, trouxe uma senhora de 80 anos. Ela ficou satisfeita e voltou segura de que a casa dela vai sair. Acho que é um caso a menos de depressăo”, diz Zezinho do Bento.
Marjorie Souza, de 13 anos, e Geovanna da Silva, de 15, estavam em um hotel na capital paulista (foto: Arquivo de família)
Foram encontradas em um hotel na cidade de Săo Paulo, neste domingo (4/11), as duas irmăs adolescentes de Contagem, na Grande BH, que estavam desaparecidas desde a última quinta-feira.
O pai de uma delas, que mora no Rio de Janeiro, foi à capital paulista buscar as jovens, que foram levadas para a casa dele. Marjorie Souza, de 13 anos, e Geovanna da Silva, de 15, estavam bem. Segundo o padrasto, Eder Guedes da Silva, a localizaçăo ocorreu por iniciativa das próprias meninas. “A mais nova ficou com medo e entrou em contato com o pai”, contou.
As adolescentes foram vistas pela última vez na BR-040, nas proximidades da Ceasaminas, andando a pé. Elas se desentenderam com a avó no dia anterior e sumiram depois de afirmar a amigos que iriam para Santa Catarina, no Sul do país. Elas vestiam um uniforme estudantil no momento do desaparecimento – calça azul, camisa azul clara com detalhes em amarelo e vermelho e mochilas. Também carregavam R$ 5, biscoitos e itens pessoais, como roupas e materiais escolares.
A família ainda năo tem os detalhes da fuga e năo soube informar como elas conseguiram chegar à capital paulista, já que năo tinham dinheiro para a passagem nem para hospedagem.
Um barco de turismo com 12 pessoas a bordo virou durante uma tempestade, na noite deste sábado, 3, em Itanhaém, no litoral sul do Estado de Săo Paulo, deixando três mortos.
Uma das vítimas chegou a ser socorrida com vida, mas morreu depois de ser levada ao hospital, após sofrer uma parada cardiorrespiratória. Duas pessoas desapareceram nas águas do mar, próximo da regiăo central da cidade. O grupo de resgate marítimo do Corpo de Bombeiros iniciou as buscas pelos desaparecidos e os corpos foram localizados na madrugada deste domingo, 4. Os demais ocupantes conseguiram se salvar.
A embarcaçăo ‘Serena Fishing’ retornava da Ilha da Queimada e se preparava para entrar na Boca da Barra, na foz do Rio Itanhaém, por volta das 19 horas, quando foi apanhada pelo temporal.
O vento forte e as ondas altas fizeram o barco adernar e virar. Os dez turistas e dois tripulantes foram lançados na água. Ocupantes de uma viatura da Guarda Civil Municipal de Itanhaém viram o barco adernando e mobilizaram equipes do Corpo de Bombeiros para socorrer as vítimas.
A Capitania dos Portos abriu inquérito para apurar as causas do acidente. Em setembro, um barco com 15 pessoas a bordo virou no mesmo local. Uma pessoa ficou presa sob a embarcaçăo e morreu afogada.
Vento
A tempestade com ventania também provocou estragos na regiăo metropolitana de Săo Paulo. Desde as 19h20 de sábado, o Corpo de Bombeiros recebeu 325 chamadas sobre quedas de árvores na capital e Grande SP.
Com o problema, muitos bairros da capital ficaram sem luz por horas, desde a noite de sábado. Alguns distritos, como Interlagos, seguiam sem energia elétrica até as 15 horas deste domingo.
Um quarto paciente morreu após transferência em decorrência de um incêndio na tarde deste sábado, 3, na Coordenaçăo de Emergência Regional (CER), que fica na entrada do Hospital Municipal Lourenço Jorge, na Barra da Tijuca, zona oeste do Rio.
A morte de três pacientes em estado grave em decorrência da transferência para o Hospital Municipal Lourenço Jorge já tinha sido divulgada no sábado, mas a Prefeitura informou neste domingo, 4, que mais um paciente faleceu após ser transferido para outra unidade da rede municipal.
O CER concentrava a triagem dos pacientes, antes que fossem encaminhados para a unidade hospitalar. O incêndio aconteceu no segundo andar do prédio, onde fica o refeitório e os dormitórios da equipe que trabalha no hospital.
A Secretaria Municipal de Saúde (SMS) divulgou nota de pesar. A Secretaria Municipal de Conservaçăo e Meio Ambiente (Seconserma) informou que realizaria até esta segunda-feira o enterro das vítimas, sem custos para as famílias.
Segundo informaçőes da Prefeitura do Rio, equipes de assistentes sociais e uma psicóloga estăo assistindo pacientes e parentes de afetados pelo incêndio. Técnicos da Defesa Civil isolaram a área para apurar as causas do fogo.
“Sou de delegar e cobrar resultados. Vou anotando as tarefas que passo para depois exigir respostas” – Ibaneis Rocha, governador eleito (foto: Arthur Menescal/Esp. CB/D.A Press)
Sem atuaçăo prévia na gestăo pública ou na vida parlamentar, o governador eleito do Distrito Federal, Ibaneis Rocha (MDB), era uma incógnita no meio político até entrar na disputa pelo Palácio do Buriti. Assim que ele se consagrou campeăo da corrida pelo governo, uma dúvida surgiu entre representantes da máquina pública, de sindicatos, do setor produtivo e de parlamentares: qual será o perfil adotado pelo futuro chefe do Executivo local, que toma posse em 1º de janeiro?
Antes mesmo de assumir o cargo, Ibaneis começou a dar sinais de qual será seu estilo de comando. Ele nega que seja centralizador e promete delegar tarefas, mas já antecipou que concentrará atribuiçőes importantes, como a articulaçăo política. Diplomático, abaixou o tom ríspido da campanha e fez elogios ao adversário, Rodrigo Rollemberg (PSB), ao lado de quem terá que conduzir a transiçăo. Sinalizou ainda que pretende ouvir a sociedade organizada antes de tomar decisőes importantes — até a escolha de secretários passou por consultas a segmentos interessados em cada área.
Essa ânsia de agradar a vários setores e de fugir de embates, entretanto, pode trazer empecilhos a Ibaneis, sobretudo diante da dificuldade em chegar a consensos com relaçăo a algumas decisőes. A escolha do futuro secretário de Saúde é um exemplo. Na última terça-feira, o governador eleito anunciou que divulgaria o nome do futuro chefe da pasta no fim do dia, após uma série de reuniőes com representantes do segmento.
Ele ouviu integrantes de sindicatos de médicos, enfermeiros, auxiliares de enfermagem, e de especialistas na área, como o ex-secretário de Saúde Jofran Frejat. Mas, depois da bateria de encontros, năo chegou a um nome para a secretaria. Ainda sem um titular capaz de agradar a integrantes de todas as carreiras da saúde, a saída foi criar uma equipe de transiçăo, que discutirá os principais problemas do sistema de atendimento médico, para só depois anunciar o escolhido. Além da Secretaria de Saúde, o emedebista já anunciou que pretende criar ainda uma pasta específica para cuidar apenas da atençăo básica de saúde.
Outra promessa de campanha foi cumprida na primeira semana da transiçăo. Após a eleiçăo da listra tríplice de delegados para a escolha do cargo de diretor-geral da Polícia Civil, Ibaneis Rocha anunciou que nomeará o mais votado: Robson Cândido teve 242 votos na eleiçăo interna da categoria, realizada na última quarta-feira. O atual comandante da instituiçăo, Eric Seba, nomeado por Rollemberg, também havia ficado em primeiro lugar entre os delegados.
O Sindicato dos Policiais Civis, entidade que reúne agentes e escrivăes, também pretendia formar uma lista, mas a categoria năo reagiu à decisăo do governador eleito de antecipar sua decisăo, após a formaçăo da lista tríplice eleita pelos delegados. Ibaneis Rocha pretende ainda ouvir a populaçăo para a escolha dos administradores regionais. A medida já está prevista na Lei Orgânica do Distrito Federal e deve ser detalhada por meio de decreto, sem a necessidade da criaçăo de uma lei que discipline a participaçăo popular.
Acostumado a lidar com o poder após administrar a Ordem dos Advogados do Brasil no DF (OAB-DF) por três anos, o emedebista garante que năo é centralizador. “Sou de delegar e cobrar resultados. Vou anotando as tarefas que passo para depois exigir respostas. O governo tem dia para começar e para terminar, entăo teremos que tomar medidas e exigir os resultados com rapidez”, explica.
A decisăo de aumentar o número de secretarias é usada por Ibaneis como exemplo de que privilegia sempre a delegaçăo de tarefas. Ele lembra que a OAB-DF tinha 50 comissőes, cada uma responsável por temas específicos e que, por isso, sabia sempre a quem recorrer quando precisava tratar de algum assunto. “Com mais secretarias, terei de quem cobrar cada tarefa, por mais específica que seja”, acrescenta o governador eleito. “Em algumas pastas estratégicas, como saúde, educaçăo, segurança e obras, quero estar sempre junto. E, nessas áreas, năo haverá indicaçőes políticas”, garante.
Coordenador de campanha de Ibaneis e confirmado como secretário de Fazenda da futura gestăo, André Clemente diz que o chefe “é uma pessoa de grupo”. “Ele tem uma necessidade enorme de conhecer todas as áreas, năo necessariamente de controlá-las. Ele delega muito e exige resultados sempre”, garante Clemente. “Grandes líderes têm sempre măo boa para escolher pessoas e formar equipes de credibilidade”, acrescenta o auditor da Fazenda.
Impulso
Outra característica do perfil de Ibaneis que já transpareceu ainda na transiçăo é que, muitas vezes, ele age por impulso. Um exemplo foi o anúncio de que o empresário José Humberto Pires ocuparia a Secretaria de Desenvolvimento Econômico. Desejoso de ter Pires em seu secretariado, o governador eleito anunciou seu nome, mas, logo depois da divulgaçăo, o empresário divulgou nota para esclarecer que năo aceitaria o convite “por conta de compromissos institucionais e profissionais”.
O emedebista indicou ainda que pretende manter relaçőes institucionais fortes na Esplanada dos Ministérios. Além de visitar o presidente da República Michel Temer um dia após as eleiçőes, Ibaneis sinalizou por várias vezes que quer um bom relacionamento com o presidente eleito, Jair Bolsonaro. Disse que vai consultá-lo para escolher o secretário de Segurança e declarou voto no capităo da reserva.
Ibaneis visitou ainda a Câmara Legislativa e o presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Dias Toffoli, nos primeiros dias de gestăo. Numa sinalizaçăo de que quer boas relaçőes com outros estados, já esteve com os governadores eleitos de Goiás e de Săo Paulo, Ronaldo Caiado (DEM) e Joăo Doria (PSDB).
Troca de poder
A equipe de transiçăo terá integrantes da atual gestăo, como o secretário-chefe da Casa Civil, Sérgio Sampaio, e indicados pelo governador eleito, Ibaneis Rocha (MDB). O emedebista nomeou seu vice, Paco Britto (Avante) como coordenador da transiçăo. Os secretários da próxima administraçăo, à medida que forem anunciados por Ibaneis, passarăo a compor o grupo.
A primeira semana
Desde que foi eleito, o advogado Ibaneis Rocha (MDB) tem buscando o diálogo com personalidades do meio político e jurídico. Na segunda-feira, esteve no Palácio do Planalto com o presidente Michel Temer, para tratar de recursos para o Distrito Federal, e com o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Dias Toffoli.
No dia seguinte, Ibaneis foi à Câmara Legislativa, para conversar com os deputados distritais sobre o orçamento para 2019.
Na quarta-feira, embarcou para Săo Paulo, onde esteve com o governador eleito, Joăo Doria (PSDB). Ontem, houve um novo encontro com o tucano, no hotel onde Ibaneis está hospedado. Dessa vez, participou também o governador eleito do Rio de Janeiro, Wilson Witzel (PSC).
Nesta semana, Ibaneis deve ser receido pelo presidente eleito, Jair Bolsonaro (PSL).
Um incêndio atinge agora a área de ambulâncias do Hospital Municipal Lourenço Jorge, na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro. Os bombeiros já estăo trabalhando no local, mas ainda năo têm informaçőes se o fogo foi controlado.
De acordo com o Centro de Operaçőes Rio, a Avenida Ayrton Senna está com a pista lateral, no sentido Linha Amarela, interditada e o tráfego na rodovia tem retençőes nesse trecho, que fica próximo ao terminal de ônibus Alvorada, no entroncamento da Avenida das Américas com a Ayrton Senna. Os motoristas devem seguir pela pista central.
Funcionários, a princípio, descartaram a possibilidade de incêndio criminoso. Eles acham que pode ter sido um acidente na parte elétrica do ar-condicionado (foto: Corpo de Bombeiros/Divulgaçăo)
Ao menos três pacientes morreram durante a transferência da Coordenaçăo de Emergência Regional (CER), que pegou fogo na tarde deste sábado, (3/11), para o Hospital Municipal Lourenço Jorge, na Barra da Tijuca, na zona oeste do Rio de Janeiro. Parte do Hospital Lourenço Jorge foi destruída por um incêndio que começou, por volta das 15h40, no segundo andar, e rapidamente se alastrou.
Médicos, socorristas e os maqueiros agiram com agilidade e conseguiram levar os pacientes para outras alas do hospital, com segurança, antes mesmo da chegada dos bombeiros. A CER é uma porta de entrada do hospital, de atençăo imediata, e tem a funçăo de direcionar os pacientes em situaçőes muito graves ao hospital.
De acordo com informaçőes da Unidade de Pronto Atendimento (UPA), o local estava superlotado, com aproximadamente 300 pessoas. Funcionários, a princípio, descartaram a possibilidade de incêndio criminoso. Eles acham que pode ter sido um acidente na parte elétrica do ar-condicionado do segundo andar – que serve de apoio às equipes médicas, com refeitório e dormitórios.
“De acordo com uma enfermeira, “se o fogo tivesse começado por baixo, tinha morrido todo mundo, pois năo daria tempo para a gente entrar. Houve muito grito, desespero, mas conseguimos salvar todo mundo”, disse. Os funcionários năo quiseram se identificar temendo represálias. Eles já vêm sofrendo ameaças de demissăo e estăo com mais de dois meses de salários atrasados.
Morador do entorno, o prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella, acompanhou, no local, a açăo do Corpo de Bombeiros. A secretaria de saúde do município investiga o ocorrido. O incêndio teve também forte impacto no trânsito. O Centro de Operaçőes da Prefeitura do Rio interditou aa pista lateral da Avenida Ayrton Senna, no sentido da Linha Amarela. O tráfego foi desviado para a pista central.
Por volta das 16h, a Av. Ayrton Senna tinha retençőes a partir da Av. Pref. Dulcídio Cardoso. Os motoristas tinham que passar pelo Recreio (Av. Alfredo Baltazar da Silveira) ou pelo Pepê (Av. Érico Veríssimo). A indicaçăo da Prefeitura, para quem trafegava pela Av. das Américas, era seguir pela Av. Luis Carlos Prestes, Av. José Silva de Azevedo Neto e Av. Juan Manuel Fanjo, até acessar a Av. Ayrton Senna, na altura do Via Parque.
Leonardo Antônio Limeira Ribeiro (E) está à frente da sapataria em que o experiente sapateiro Darcílio Alves trabalha (foto: Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press)
A produçăo artesanal ganhou lugar cativo no comércio brasiliense. Empresários da capital desenham e manufaturam os próprios produtos com técnicas antigas. A proposta é oferecer um bem exclusivo ao comprador. Pode ser uma carteira de couro, a encadernaçăo clássica de um livro querido ou uma bolsa, peça de roupa ou sapato costurados sob medida.
É, também, um mercado que enfrenta desafios, os mesmos impostos a qualquer pequena empresa, mas com uma capacidade de confecçăo limitada ao número de pessoas que dominam aquela técnica. E, para superá-los, a aliada acaba sendo a tecnologia. Internet, redes sociais e lojas colaborativas estăo entre as principais soluçőes para manter a lucratividade da produçăo limitada.
Cada peça pensada, desenhada, recortada e costurada à măo contrasta com o equivalente produzido em série e seus milhares de semelhantes. É sabendo disso que Will Pedrosa, 35 anos, e Felipe Kuhlmann, 31, optaram por manter a confecçăo de carteiras e outros artigos de couro limitada a eles e outros cinco funcionários.
A Brave Man, empresa que a dupla criou em 2013, sobrevive de vendas pela internet. “Começamos em um quarto na casa do Felipe. Compramos couro e produzimos uma quantidade de carteiras para ver se ia dar certo. Fazíamos a produçăo e a divulgaçăo”, conta Will.
Ele recorda, ainda, que, quando começaram, năo sabiam “pregar um botăo na camisa”. Aos poucos, aprenderam o uso das ferramentas e fizeram cursos. Felipe chegou a viajar para os Estados Unidos, para qualificar o trabalho. Hoje, a dupla vende o material pela internet, mas tem endereço próprio para produzi-lo e acondicioná-lo.
“Hoje, o Will cuida da produçăo e eu do marketing e administraçăo. Nossos desafios estăo mais relacionados à expansăo dos negócios. A Brave Man ainda pode crescer muito, mas temos que fazer isso conservando a essência do nosso modelo de negócio. A industrializaçăo banaliza e conflita com os pilares da empresa”, explica
Thiago Balieiro Martins herdou o negócio e o ofício do pai, encadernador (foto: Marilia Lima/CB/D.A Press)
Entre geraçőes
Até a entrada da Encadernadora Martins, no início da Asa Norte, remete a uma Brasília de outros tempos. Um biombo pintado com tinta-óleo cinza, um balcăo e um banco de madeira semelhante àqueles antigos de praça, mas sem muitos detalhes, escondem a oficina repleta de prensas, pesos, martelos, estiletes, linhas e outras ferramentas para encadernaçăo e recuperaçăo de livros.
Thiago Balieiro Martins, 36, toca o trabalho que era do pai, Clóvis Martins, que morreu em 2017, aos 71 anos, e chama o local de trabalho de “sala de encadernaçăo e recuperaçăo”. “Atendemos alguns juízes do DF, cartórios do DF e Entorno, e somos muito procurados para restauraçăo de livros, principalmente quando há um apego especial”, revela Thiago.
A encadernadora também faz livros contábeis e trabalhos universitários. A marca é a capa de couro, as letras douradas, tudo nos mínimos detalhes. “Dependendo do tipo de restauraçăo, da idade do livro e de quanto ele está danificado, desmanchamos todo o processo antigo e reencadernamos completamente. Até a capa fazemos a partir do zero”, afirma, mostrando pedaços de couro de diversas cores.
“Meu pai trouxe a técnica do Rio Grande do Sul. Mas aprendeu grande parte do ofício com um amigo chamado Teodorico, que já era bem velho quando começou a ensiná-lo. Tem ferramentas que eram dele, passaram para o meu pai e, depois, para mim.”
O negócio é familiar e funciona há 50 anos. Thiago começou em 2000, aos 18 anos. Trabalha ao lado do irmăo, Luciano Baleiro, 40, e conta com a ajuda de um primo. O segredo é a dedicaçăo. “No trabalho artesanal, cada peça é única e cada livro tem uma necessidade. Um trabalho em larga escala năo nos permitiria observar esses pequenos detalhes. O material usado em encadernaçőes de larga escala também é de menor qualidade. A maioria dos livros que recebo para restaurar tem um apreço, um valor sentimental do dono”, observa Thiago, que pretende levar o trabalho para a internet para diversificar a clientela.
Felipe Kuhlmann e Will Pedrosa vendem carteiras e pulseiras de couro (foto: Marilia Lima/CB/D.A Press)
Em família
Leonardo Antônio Limeira Ribeiro, 32 anos, e a irmă, Ana Angélica Limeira Ribeiro, 30 anos, estăo à frente da Couro Chique. A loja é antiga na capital, com 35 anos de praça. O serviço de restauraçăo e produçăo de calçados também segue a tradiçăo. Tem até um sapateiro que faz questăo de trabalhar diretamente em cada uma das encomendas.
Darcílio Alves, 62, começou a confeccionar calçados aos 12 anos. Agora, o material produzido também pode ser encontrado na rede social Instagram. “Nosso foco é o conserto, mas fazemos sapatos sob medida também. Temos vários clientes, mas os principais săo portadores de necessidades especiais”, destaca Leonardo.
“O trabalho artesanal nos permite corrigir defeitos que a produçăo em larga escala năo calcula. Além disso, usamos materiais de melhor qualidade. Um sapato masculino ou feminino de couro, se bem cuidado, vai durar muito mais tempo que um tênis de marca”, garante Darcílio. “Uma das nossas dificuldades é o imposto. Na parte de produçăo, pagamos imposto por serviço, de 15%, que é mais caro que o de vendas, que fica entre 12% e 13% do faturamento”, completa Leonardo.
As bolsas da Nuvii Bolsas, por sua vez, podem ser encontradas no Instagram da marca ou em uma loja colaborativa da Asa Norte. Cada peça é fabricada pela criadora da grife, Maiara Nunes, 29, moradora de Ceilândia Norte. Ela entrou para a formalidade recentemente e está aprendendo a lidar com a parte administrativa do empreendimento.
“A Nuvii Bolsas surgiu depois do meu período de maternidade. Tive dois filhos e queria fazer alguma coisa que me permitisse cuidar deles. Veio a ideia da costura, comprei uma máquina e comecei a aprender. Fui desenvolvendo as técnicas e passei a ter gosto pelo trabalho. Eu me arrisco até a desenhar as peças”, relata.
Maiara produz cerca de 50 bolsas por semana. Assim, consegue atender a loja e o perfil na rede social. “É uma quantia que está dentro do orçamento. Trabalho sozinha e produzo cada peça com muito amor. Tem uma energia boa em uma peça feita por uma microempreendedora”, reflete.
Adna Santos, a Măe Baiana, teve o terreiro incendiado e depredado em 2015: “Precisam respeitar nossa fé” (foto: Zuleika de Souza/CB/D.A Press)
Constitucionalmente, o Brasil é laico há mais de 120 anos e năo discrimina nenhuma religiăo. Na prática, o país ainda mostra as faces da intolerância religiosa, com agressőes físicas, xingamentos, depredaçőes, destruiçőes de imagens, tentativas de homicídio e incêndios criminosos. Levantamento feito pelo Ministério dos Direitos Humanos (MDH), com base nas ligaçőes para o Disque 100, aponta que, no primeiro semestre deste ano, foram registradas 210 denúncias de discriminaçăo por religiăo. Os estados campeőes săo Rio Grande do Norte, Săo Paulo e Rio de Janeiro. Desde 2015, o estado potiguar lidera o ranking, e os outros dois têm alternado o segundo e o terceiro lugares.
Em comparaçăo com 2017, em que ocorreram 255 casos no mesmo período, as ocorrências diminuíram. No entanto, os números podem ser ainda maiores, pois a taxa de subnotificaçăo é alta. Entre as religiőes que mais sofrem discriminaçăo, está a umbanda, com 34 denúncias; o candomblé, com 20; e a evangélica, com 16 casos. O Distrito Federal aparece com apenas uma denúncia. Porém, a Secretaria da Segurança Pública e da Paz Social do DF registra nove ocorrências de discriminaçăo religiosa, de janeiro a setembro. No mesmo período do ano passado, foram oito casos. A pesquisa do MDH também traçou o perfil dos agressores. A maioria das açőes de intolerância é praticada por mulheres. Elas também encabeçam a lista das vítimas — săo 45,18%, contra 37,35% dos homens.
Adna Santos, 56 anos, mais conhecida como Măe Baiana, sentiu na pele a discriminaçăo contra o candomblé, religiăo à qual pertence. Chefe da Divisăo de Proteçăo de Patrimônio da Casa Palmares, ela possui um terreiro no Lago Norte, na divisa com o Paranoá. Em novembro de 2015, o Ylê Axé Oyá Bagan foi incendiado e vários santos e instrumentos religiosos foram queimados ou destruídos. Um laudo da polícia apontou curto-circuito, conclusăo contestada por membros da comunidade. No mesmo ano, foram registrados mais de 10 ataques a terreiros no DF.
“Sofro preconceito. Sou preta, măe de santo, com um terreiro instalado em uma área nobre. A situaçăo melhorou com a implantaçăo da delegacia contra crimes religiosos e com a visibilidade da Palmares. Antes, o próprio governo desconhecia o nosso povo. A populaçăo nos tratava como macumbeiros”, diz Măe Baiana. Ela afirma que, no Distrito Federal, săo 330 terreiros registrados, a maioria em Ceilândia e em Planaltina. “Os ataques diminuíram, mas continuam em outros estados. Precisamos que respeitem a nossa história e a nossa fé, assim como respeitamos a dos outros”, afirma.
Desconforto
Para o pastor da 2ª Igreja Batista do Cruzeiro Velho, Lúcio Flávio Grosso Rezende, a regiăo onde a igreja está localizada é receptiva. No entanto, ele salienta que os ataques aos evangélicos pelo país săo lamentáveis. “O evangélico tem uma forma mais ortodoxa de ler a Bíblia e de colocar os princípios bíblicos em prática, o que causa desconforto a quem năo tem essa mesma visăo. Um exemplo: o evangélico năo consome bebida alcoólica, e, se se depara com alguém que bebe, pode gerar preconceito e discussăo”, diz.
O padre Geraldo Ascari, da Paróquia Santa Terezinha, no Cruzeiro Novo, ressalta que os ataques às crenças religiosas já foram piores, mas que “é necessário que a populaçăo saiba respeitar os valores de rituais diferentes”. Do lado católico, diz, “a diretriz é de respeito e acolhimento dos diferentes. Nesta semana mesmo, celebramos o casamento de um espírita com uma católica. A religiăo dá o autoconhecimento e oferece o lado humano da convivência.”
A religiăo wicca também sofre preconceito. A Uniăo Wicca do Brasil (UWB) estima que cerca de 300 mil pessoas pratiquem bruxaria no país. A estudante de psicologia e taróloga Luana Cavalari, 35 anos, é uma das adeptas. Ela relata que a maioria das pessoas associam wicca a feitiçaria, mas que a religiăo nada tem a ver com isso. “Dizem que fazemos maldade, pacto com o capeta, mas năo. É uma religiăo neopagă, politeísta, que estuda o paganismo de uma forma nova. Năo existe sacrifício nem nada do tipo, pelo contrário. As oferendas consistem em frutas e flores. Celebramos as mudanças das estaçőes do ano e as fases da lua. É um culto voltado aos deuses”, explica.
“É necessário que a populaçăo saiba respeitar os valores de rituais diferentes. A religiăo dá o autoconhecimento e oferece o lado humano da convivência” Padre Geraldo Ascari, da Paróquia Santa Terezinha, no Cruzeiro Novo
Para Lia Zanotta, da UnB, discursos radicais no período eleitoral colocaram sob ataque direitos básicos da cidadania (foto: Ed Alves/CB/D.A Press)
Racismo predomina
A antropóloga da Universidade de Brasília (UnB), Lia Zanotta, observa que, no Brasil, as religiőes que tendem a ser mais discriminadas e enfrentam maior intolerância săo as de matriz africana. “Tem por trás disso um racismo grande. Além disso, a pessoa acha que sua religiăo é melhor que a do outro. Temos episódios frequentes de derrubada e queima por parte de pessoas que dizem agir em nome de uma religiăo superior”, diz. Zanotta aponta ainda que a açăo de radicais observada no período eleitoral colocou em jogo a dignidade da pessoa.
“Vemos a hierarquizaçăo de héteros sobre homossexuais, homem sobre mulher, cristăos sobre năo cristăos. Isso está vindo pela questăo política. A dignidade humana năo discute quem vale mais. Essas questőes năo deveriam estar na pauta das eleiçőes. Săo direitos básicos, garantidos. Uma democracia consolidada năo discute isso. É preciso respeitar a diversidade, esquecer divisőes hierárquicas e fantasiosas. As religiőes devem estar abertas à conversaçăo e ao respeito mútuo”, afirma.
O advogado criminalista e constitucional Adib Abdouni, alerta que liberdade religiosa é garantida pela Constituiçăo Federal, no artigo 5º, inciso VI: “É inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteçăo aos locais de culto e a suas liturgias”.
Detençăo
Abdouni ressalta ainda que o Código Penal prevê, no artigo 208, a condenaçăo da discriminaçăo religiosa: ‘Escarnecer de alguém publicamente, por motivo de crença ou funçăo religiosa; impedir ou perturbar cerimônia ou prática de culto religioso; vilipendiar publicamente ato ou objeto de culto religioso é penalizada com detençăo de 1 mês a um ano ou multa. Se houver emprego de violência, a pena é aumentada em um terço, sem prejuízo da correspondente à violência.”
A Secretaria da Segurança Pública informa que denúncias podem ser feitas em qualquer delegacia ou na Delegacia Especial de Repressăo aos Crimes por Discriminaçăo Racial, Religiosa ou por Orientaçăo Sexual ou contra a Pessoa Idosa ou com Deficiência (Decrin). Outros serviços disponíveis săo a Delegacia Eletrônica, acessada pelo site da Polícia Civil (http://www.pcdf.df.gov.br), e ainda o Disque 100.