O golpe da biometria usa fotos, vídeos e técnicas de manipulação para burlar o reconhecimento facial e fraudar identidades. Com a popularização desse recurso em bancos e outras operações digitais, criminosos tentam abrir contas em nome de terceiros e enganar pessoas com imagens ou vozes clonadas.
Os ataques miram instituições financeiras e cidadãos. De acordo com Anderson Leite, pesquisador sênior de segurança da Kaspersky, quadrilhas procuram abrir contas com dados de “laranjas”. Já usuários podem receber falsas ofertas de investimento ou pedidos urgentes de dinheiro feitos com rostos e vozes imitados.
Além disso, fraudadores buscam obter imagens por redes sociais, abordagens diretas e links. A inteligência artificial generativa permite criar modelos do rosto a partir de poucas fotos públicas, enquanto falsas ofertas de emprego podem pedir selfies com documentos.
Como o golpe da biometria tenta enganar bancos e usuários
A Certiface registrou no Brasil mais de 3,6 milhões de rostos com restrições ligadas a tentativas de fraude de identidade. Entre maio e setembro deste ano, a empresa afirma ter impedido três ataques por minuto contra instituições financeiras, varejistas e outros negócios monitorados.
Segundo Pedro Tavares, diretor da Certiface, bancos e varejistas usam validação biométrica para proteger ações que podem gerar prejuízo financeiro. Muitas redes varejistas também oferecem serviços financeiros, como abertura de contas e emissão de cartões. Em outros casos, os fraudadores tentam desviar mercadorias ao alterar endereços de entrega.
Os sistemas identificam semelhanças com rostos já cadastrados, divergências entre aparência, idade e gênero informados e sinais de manipulação em fotos. Em seguida, encaminham os casos para análise manual; a restrição só é aplicada após essa etapa.
Casos recentes de fraude com reconhecimento facial
No Mapa da Fraude do primeiro semestre de 2026, a Serasa Experian alertou para o chamado “golpe do sósia”. Os criminosos comparam o próprio rosto com imagens disponíveis em diferentes bases, inclusive obtidas ilegalmente, para encontrar pessoas parecidas e abrir cadastros ou contas.
Outro esquema desviou R$ 86 milhões do Benefício de Prestação Continuada (BPC/Loas), pago pelo Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). A quadrilha registrava tardiamente o nascimento de pessoas inexistentes, com supostas testemunhas, e obtinha documentos para os idosos fictícios.
Para passar pelo cadastro biométrico em bancos e agências da Previdência Social, a organização usava pessoas reais como “dublês”, que emprestavam o rosto e as impressões digitais. No início de outubro, o Ministério Público Federal denunciou à Justiça Federal 35 pessoas envolvidas na fraude em Minas Gerais.
Neste mês, o Itaú também alertou para golpes de engenharia social que levam a própria vítima a fornecer sua biometria. Com a promessa de liberar um prêmio, por exemplo, os criminosos pedem fotos, vídeos ou reconhecimento facial, pessoalmente ou por links. Depois, podem usar os dados para abrir contas “laranjas” e movimentar valores de golpes.
Como proteger sua biometria contra o golpe
Para reduzir a exposição, mantenha os perfis de redes sociais privados e evite publicar vídeos em alta definição com o rosto parado e bem iluminado. Nunca envie selfies com documentos a desconhecidos; se uma empresa ou um recrutador fizer esse pedido, confirme a solicitação pelos canais oficiais.
Além disso, revise as permissões do celular e retire o acesso à câmera e à galeria de aplicativos que não precisam desses recursos. Use o reconhecimento facial como uma camada de proteção, não como a única: combine-o com um PIN forte ou a autenticação em duas etapas.
A verificação em duas etapas acrescenta um código enviado ao celular ou a um aplicativo de segurança. Também é possível usar um software de proteção para bloquear páginas falsas e impedir a instalação de programas espiões.
Em uma chamada suspeita, peça à pessoa para passar a mão diante do rosto ou virá-lo rapidamente. Movimentos imprevisíveis podem expor distorções em filtros de deepfake em tempo real, embora essa checagem não substitua outras confirmações.
Se um chefe, amigo ou familiar pedir dinheiro com urgência por áudio ou vídeo, encerre o contato e ligue para o número original da pessoa. Para situações financeiras emergenciais, combine com a família uma palavra ou frase de segurança, que o criminoso não conhecerá mesmo que imite a voz.