O que era para ser um dos momentos mais felizes da vida de Tatiane, de 42 anos, transformou-se em um drama prolongado e doloroso. Após dar à luz seu filho em janeiro de 2020, ela passou a conviver com dores abdominais agudas e frequentes, que durante anos foram um mistério tanto para ela quanto para os profissionais da saúde que consultou.
A surpresa — e o choque — vieram apenas cinco anos depois, quando, após insistentes exames e uma investigação mais aprofundada, os médicos descobriram um objeto estranho alojado em sua cavidade abdominal: um corpo estranho, esquecido durante o procedimento de cesariana realizado em uma unidade de saúde conveniada ao plano Amil.
Durante todo esse tempo, Tatiane relatava aos médicos sintomas como desconforto constante, sensação de inchaço e episódios de dor intensa que interferiam na sua qualidade de vida. “Foram anos sendo desacreditada. Me diziam que era normal após uma cesárea, que era psicológico, que eu deveria procurar outras explicações. Mas eu sentia que havia algo errado comigo”, contou a paciente, emocionada.
A descoberta do objeto ocorreu durante uma tomografia recente, solicitada por um novo especialista após perceber que as dores não eram compatíveis com o tempo decorrido da cirurgia. O exame apontou o que parecia ser uma compressa cirúrgica ou um instrumento esquecido no interior do abdômen — uma falha gravíssima e evitável.
O caso reacendeu debates sobre a segurança nos procedimentos hospitalares, especialmente em maternidades e hospitais conveniados a planos de saúde. Após a repercussão, a Amil se pronunciou brevemente por meio de nota, afirmando que “está à disposição da Justiça para os esclarecimentos necessários”, sem, no entanto, mencionar se já iniciou alguma apuração interna ou se oferecerá suporte à paciente.
Especialistas apontam que o esquecimento de materiais cirúrgicos dentro do corpo de pacientes, embora raro, ainda ocorre e é classificado como erro médico grave. “É inaceitável que algo assim ainda aconteça. Isso representa não só uma falha individual, mas também uma falha de protocolo e segurança do paciente”, explica o cirurgião Carlos Mendes, que não tem ligação com o caso, mas comentou o ocorrido.
Tatiane, agora, busca justiça e pretende entrar com uma ação contra o hospital e o plano de saúde. Seu advogado já prepara o processo, que incluirá pedido de indenização por danos morais, físicos e psicológicos. “Ela passou anos sofrendo, com dores, limitações, sem saber o que tinha. Isso é inadmissível”, afirmou o representante legal da vítima.
Enquanto aguarda o desenrolar do processo, Tatiane tenta se recuperar emocionalmente e fisicamente do pesadelo que viveu por meia década. “Eu só quero que ninguém mais passe pelo que eu passei. Isso não pode acontecer com outra mulher, com outra mãe”, desabafa.
O caso segue sob investigação e poderá ter desdobramentos importantes para o sistema de fiscalização hospitalar no país.