Um pouco da história do botânico Freire Alemão, que viveu na Serra do Mendanha no século XIX e teve seu monumento, em Campo Grande, roubado em 2017.
FREIRE ALEMÃO, O BOTÂNICO DO MENDANHA
Francisco Freire Alemão nasceu em 24 de julho de 1797 na Fazenda do Mendanha, filho de lavradores. Seu padrinho foi o próprio dono da fazenda, o padre Antônio Couto da Fonseca, que passou a lhe dar aulas. Em 1817, ele entraria para a Escola Eclesiástica como aluno gratuito, onde iria se aperfeiçoar em diversas disciplinas, aprendendo vários idiomas, inclusive o grego. Acabou saindo do seminário em 1821 (um ano depois da morte do seu protetor, o padre Couto), por acreditar que não tinha vocação para o sacerdócio. Seu grande interesse, como iria se verificar, era mesmo a ciência.
Freire Alemão recebe proteção do irmão mais velho, Antônio, enfermeiro da Santa Casa de Misericórida, e passa a dar aulas de latim. Em 1822, ano da independência, resolve estudar medicina na Escola Médico-Cirúrgica. Pede uma pensão para estudar e consegue. Nesse período, também aproveita para fazer o curso de Química na Escola Militar. Forma-se médico em 1827 e, ajudado pelo irmão e por amigos, realizou o seu grande sonho de viajar a Paris em 1829, onde fez vários cursos, tornando-se Doutor em Medicina pela faculdade de Paris. Volta ao Rio de Janeiro em 1832 e, dois anos depois, Freire Alemão começa a dar aulas de Botânica e Zoologia na Faculdade de Medicina, no Colégio dos Jesuítas, que ficava no antigo morro do Castelo.
Na década seguinte, em 1841, socorre o imperador D. Pedro II, que sofrera uma ligeira congestão cerebral, e assume o cargo de médico da Imperial Câmara, podendo freqüentar a biblioteca do imperador, fundamental para seus estudos. De D. Pedro II, receberia a Ordem de Cristo e a Comenda da Imperial Ordem da Rosa, além de ser convidado e participar da comitiva que trouxe ao Brasil a nova imperatriz, D. Teresa Cristina, da Itália, em 1843. Durante todo esse tempo, Freire Alemão publicaria diversos trabalhos, com reconhecimento internacional. Descobriu diversas espécies de plantas brasileiras em suas pesquisas, que pôde fazer com mais profundidade quando se desligou do magistério, em 1853, aos 56 anos. É o que conta João Francisco de Sousa: “Logo que se viu desembaraçado do magistério, deliberou Freire Alemão entregar-se exclusivamente aos estudos e pesquisas de puro naturalista. Mudou-se, sem perda de tempo, para o seu adorado Mendanha, indo morar com sua velha tia, d. Antônia”. Ele moraria quatro anos com a tia, período em que escreveu para o IHGB importante trabalho sobre o açúcar, o café e o chá. Prossegue o autor: “Resolvido, então, a manter-se definitivamente afastado do burburinho da sociedade humana, para melhor gozar os segredos da natureza, adquiriu um pequeno sítio nas vizinhanças da residência de sua tia, e aí mandou construir uma casinha para sua vivenda”.
Depois Freire Alemão fundaria a Sociedade Velosiana, “dedicada aos estudos das ciências naturais e inspirada em Frei José Mariano da Conceição Veloso, o autor da ‘Flora Fluminense”, cuja leitura o absorvia tanto que às vezes era visto dominado por ela até na sacolejante diligência do Pedroso, que cobrava 500 réis para levar até Campo Grande os passageiros do trem da Central quando seu ponto final era em Sapopemba…”, conforme conta Brasil Gerson (“História das ruas do Rio”). Sapopemba ficava onde é hoje a estação ferroviária de Deodoro.
Depois, Freire Alemão presidiria a comissão científica que fez a exploração das regiões Norte e Nordeste entre 1859 e 1861. Esse trabalho resultou na coleta e estudo de 20 mil amostras de plantas, principalmente do Ceará, que foram doadas ao Museu Nacional.
Freire Alemão ainda seria diretor do Museu Nacional, em 1866, onde organizaria o rico acervo da instituição, boa parte doado por ele. Casou-se em 1864, aos 67 anos, com sua sobrinha, Maria Angélica, e, segundo seus biográfos José Saldanha da Gama e José de Melo Morais, que conviveram com ele, o casamento foi muito mais uma relação de afeto, amizade e admiração, que era o que Freire Alemão mais precisava. Ele morreu em 11 de novembro de 1874, aos 77 anos e Saldanha da Gama escreveu, na biografia publicada na revista do IHGB, tomo 38, que “ninguém se aproximou deste vulto simples que o não ficasse amando e respeitando”.
A casa de Freire Alemão foi demolida na década de 1990 e o curioso é que na serra que ele tanto amou, Alberto Lamego descobriria, em 1936, os vestígios de um vulcão extinto há 80 milhões de ano.
– Texto do livro O Velho Oeste Carioca, volume 1, de André Luis Mansur.