Câmeras corporais registraram um policial militar dando um soco no rosto de um adolescente de 16 anos e outro agente dizendo “Vai morrer” durante a megaoperação nos complexos do Alemão e da Penha, em 28 de outubro do ano passado. Conforme análise da Human Rights Watch (HRW), o jovem dormia em um cômodo perto da localidade da Vacaria quando agentes do Batalhão de Choque entraram no local.
A gravação, feita às 10h20, mostra ainda um agente perguntando o que o adolescente tinha para dar aos policiais. “Me mata não”, respondeu o jovem, oferecendo o celular e outros aparelhos. Em seguida, às 11h36, as imagens mostram o rapaz sendo conduzido com um grupo de detidos.
O que as câmeras corporais registraram na operação
O episódio integra a análise de 4,4 mil horas de gravações de câmeras corporais usadas por policiais militares durante a operação. A ação deixou 122 mortos: 117 suspeitos e cinco agentes de segurança. Além do registro de violência contra moradores, a HRW identificou falhas nas imagens que prejudicaram a reconstrução das circunstâncias da operação.
Na área de mata da Vacaria, onde ocorreu a maior parte das mortes, as gravações apresentaram lacunas durante a intensificação dos confrontos. Por volta das 12h11, 55% dos registros examinados já tinham sido interrompidos ou continham hiatos significativos, segundo a organização.
Entre os policiais do Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope), que atuavam naquela região, nenhuma das gravações dos 49 agentes analisadas pela HRW registrou a operação após as 12h11. Além disso, o relatório apontou 26 ocasiões em que policiais do Bope possivelmente manipularam ou retiraram as câmeras corporais.
Falhas nas câmeras corporais dificultaram a apuração
As interrupções dificultam esclarecer o que ocorreu nos confrontos e identificar em que circunstâncias policiais e suspeitos foram atingidos. Além disso, a análise da HRW não encontrou gravações que mostrem diretamente a morte de qualquer pessoa durante a operação.
Além das lacunas, as câmeras começaram a gravar ainda de madrugada, nos batalhões. Com isso, parte do período de autonomia dos equipamentos foi consumida antes do trabalho nas ruas. O tempo médio de gravação foi de seis horas e meia, embora as câmeras pudessem funcionar por até 12 horas.
A Defensoria Pública do Estado também analisou as imagens em parceria com o Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos (Gini), da Universidade Federal Fluminense (UFF), e apontou problemas semelhantes. Em um dos casos, um policial retirou a câmera do uniforme e a deixou no chão de uma residência na Penha. Durante cerca de 20 minutos, ninguém conseguiu acompanhar o que acontecia no imóvel.
Em outro episódio, uma câmera ficou no banco de uma viatura por mais de uma hora. A operação mobilizou cerca de 2,5 mil policiais civis e militares, mas os relatórios tiveram acesso às imagens de apenas 527 câmeras, todas usadas por policiais militares. Enquanto isso, a Defensoria ainda aguardava o conteúdo de 62 equipamentos que estavam com policiais civis.
Na ocasião da publicação do levantamento, a Polícia Militar informou que havia entregado as imagens aos órgãos responsáveis pelas investigações. No entanto, a Secretaria de Segurança não respondeu aos questionamentos.