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Ônibus ‘quentões’ têm ar-condicionado precário e passageiros insatisfeitos

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No centro de Campo Grande, ar-condicionado em ônibus que dê vazão durante o verão carioca é tão raro quanto uma sombra de árvore. Enquanto prefeitura e Rio Ônibus tentam se entender sobre o percentual da frota de ônibus atualmente climatizada, quem dependeu do transporte no bairro da Zona Oeste na última quinta-feira, quando os termômetros na cidade chegaram a registrar 41,2 graus no dia mais quente desde outubro de 2015, padecia sob o sol e também dentro dos “quentões”. Por volta das 14h, O GLOBO contabilizou que de 50 coletivos que passaram pela Praça Dr. Raul Boaventura, em frente à estação de trem, 43 exibiam informações que possuem ar-condicionado e trafegavam com janelas fechadas. Mas o que poderia ser um oásis diante do calorão se transformou em sofrimento.

Em quase todos os casos observados, o sistema de ar-condicionado se mostrou ineficaz diante do calorão. Cenas de passageiros se abanando com a ajuda de leques e até de motoristas enxugando o suor com a ajuda de uma toalhinha eram comuns, enquanto um vendedor ambulante fazia a alegria dos passageiros: a cada coletivo que parava no ponto, ele subia no carro e oferecia água e refrigerante gelados.

— O ar-condicionado não funciona e o pior é que as janelas não abrem. Elas são aparafusadas. Moro em Pedra de Guaratiba e duas vezes na semana venho a Campo Grande fazer fisioterapia. É uma experiência claustrofóbica andar de ônibus aqui — critica a dona de casa Suzana Silva, de 28 anos.

Para o funcionário de uma das empresas de ônibus que atuam na região, o problema da atual frota de ônibus do Rio não é o percentual de veículos que são climatizados, mas a qualidade:

— Os ônibus têm ar-condicionado, mas não dá vazão, especialmente nos microônibus.

Sem saber da presença da reportagem, dois motoristas de ônibus conversavam no mesmo ponto sobre o calor. Eis que um deles reclamou de ter dirigido um “quentão”, em referência ao coletivo em que o ar não dá vazão. O colega de profissão rebateu com ironia:

— Você está acostumado. Já está até cozido.

Frota climatizada até 2020

Em Botafogo, ônibus sem ar-condicionado circulam com janelas abertas

Em Botafogo, ônibus sem ar-condicionado circulam com janelas abertas Foto: Pedro Teixeira / Agência O Globo

A nova polêmica envolvendo o prefeito Marcelo Crivella e os empresários do setor é fruto da decisão de não conceder o reajuste da tarifa do setor. No dia 29 de dezembro, a prefeitura informou que apenas 59% dos coletivos da cidade são climatizados.

Atualmente, dos 5.756 ônibus municipais, 3.334 são climatizados, o que corresponde a 58%. Esta conta exclui os 376 ônibus do BRT e os 654 frescões que rodam na cidade. A diferença no percentual, segundo a Secretaria municipal de Transporte, não configura uma redução no número de ônibus climatizados. “Este número pode variar constantemente, tendo em vista o processo de baixa e inclusão de carros no sistema”, explicou a pasta em nota. A contagem, de acordo com a Secretaria de Transportes, é feita

Pelo acordo firmado entre prefeitura e empresários do setor em junho do ano passado, 60% da frota deveria ter sido climatizada até o dia 31 de dezembro de 2018. O percentual cresce até o prazo final: em setembro de 2020, toda a frota de ônibus da cidade deverá ser climatizada. O controle de quantos coletivos são climatizados é da própria Secretaria de Transportes. “Os ônibus precisam ser cadastrados aqui antes de entrarem em circulação”.

De acordo com a prefeitura, outras exigências não foram cumpridas, como a apresentação de forma integral os documentos comprobatórios de regularidade fiscal das empresas integrantes do sistema municipal de ônibus; entrega dos balancetes trimestrais de suas operações contábeis e financeiras, referentes ao exercício fiscal de 2018; ausência de comunicação, até o dia 29 do mês de dezembro, do cumprimento da obrigação de destinação de R$ 7 milhões ao município, para aquisição de matéria-prima asfáltica, a ser empregada no recapeamento das vias da Cidade e a entrega de estudo técnico visando a introdução de biodiesel no abastecimento da frota de ônibus.

— Se tiver um serviço adequado, a gente paga o preço justo — pondera a Angélica Schultz, de 52 anos.

Outro problema enfrentado por passageiros é a diferença no número de veículos climatizados em diferentes regiões da cidade. Na Praia de Botafogo, na Zona Sul, enquanto a reportagem observou 64 veículos com ar em 100 contabilizados (uma média de 6,4 veículos com ar a cada dez que circulam), no Méier, na Zona Norte, a mesma amostragem registrou 54 veículos com ar-condicionado em 100 observados (5,4 carros climatizados a cada dez). Quem depende diariamente do transporte ainda reclama de muitos ônibus ainda sem ar pelas ruas da cidade.

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Vendedor de água oferece aos passageiros por conta do calor em campo Grande

Vendedor de água oferece aos passageiros por conta do calor em campo Grande Foto: Pedro Teixeira / Agência O Globo

É o caso do Antônio Bonfim de Oliveira, de 74 anos, que trabalha cuidando de um barco no Iate Clube, na Urca. Ele pega dois ônibus para sair de São Cristóvão, onde mora, e chegar até o trabalho. A viagem expõe o desafio de ter toda a frota com ar-condicionado:

— Em São Cristóvão, pego o 474 ou o 472. Esses dois têm ar. Mas aqui em Botafogo, as opções para a Urca não. Então é péssimo do mesmo jeito porque uma parte da viagem tem, a outra não. De um ano para cá eu acho que aumentou o número de ônibus com ar-condicionado, mas todos eles deveriam ter. Está quente demais. É péssimo andar em ônibus sem ar.

Em nota, a Secretaria municipal de Transportes disse que realiza ações de fiscalização frequentes em terminais, garagens de empresas e nas ruas com o objetivo de verificar os serviços ofertados à população, incluindo o funcionamento do ar-condicionado nos coletivos. Caso os fiscais flagrem veículos com o equipamento inoperante, o consórcio responsável pela linha é autuado em R$ R$ 428,23. Em 2017, 186 multas foram aplicadas por inoperância do ar condicionado. Em 2018, foram 221 autuações.

Já o Rio Ônibus entregou, na última quinta-feira, uma “extensa e detalhada” documentação que comprova que todas as obrigações acordadas com o Poder Executivo do Município do Rio foram cumpridas pelos consórcios de ônibus que atuam na capital fluminense. Entre elas, foram encaminhadas informações referentes ao cronograma de climatização da frota, que está rigorosamente em dia.

Já sobre os problemas de funcionamento do ar-condicionado, o sindicato das empresas de ônibus do município afirmou que a manutenção dos equipamentos de ar-condicionado dos veículos é feita pelas empresas, por estarem diretamente ligadas à operação, e que têm procedimentos diários de checagem de funcionamento do sistema. “Vale destacar que a frota climatizada é distribuída por todas as regiões da cidade, de maneira a atender ao maior número de usuários. Entretanto, é importante esclarecer que a concorrência ilegal de vans piratas — principalmente na Zona Oeste e em alguns bairros da Zona Norte —exerce forte impacto financeiro sobre as empresas de ônibus que circulam por estas regiões, e que, consequentemente, enfrentam mais dificuldades para o investimento na renovação de suas frotas”.

Prazo para a climatização da frota, pelo acordo de junho de 2018

Meta é climatização de 100% da frota até setembro de 2020

– Até 90 dias, contados da homologação judicial do presente acordo, um mínimo de 150 veículos.

– Até 31 de dezembro de 2018, 60% da frota.

– Até 30 de junho de 2019, 70% da frota.

– Até 31 de dezembro de 2019, 80% da frota.

– Até 30 de junho de 2020, 90% da frota.

– Até 31 de setembro de 2020, 100% da frota.

Fonte: Extra Online –

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