Ruas lotadas em Campo Grande durante a quarentena!!

 

Não fosse pelo comércio fechado, um estranho diria que o bairro de Campo Grande, na Zona Oeste do Rio de Janeiro, leva vida normal durante a pandemia do novo coronavírus.

Enquanto o louvor tocava no último volume de uma caixa de som em uma banca de jornal, camelôs anunciavam seus produtos aos berros e pessoas conversavam aglomeradas em bancos de cimento na rua para pedestres. Inclusive idosos como seu Gentil, de 74 anos. Apesar de estar no grupo de risco para a covid-19, ele não teme a doença e diz que sua proteção é a religião.

“Deus me protege. Medo? Eu não tenho. Eu orei antes de sair. Rezo todos os dias. Que seja feita a vontade de Deus, mas ele está me protegendo do vírus”, afirmou o aposentado, que, contrapondo recomendações da Organização Mundial de Saúde (OMS), saiu para fazer um empréstimo, mas esqueceu sua carteira de identidade em casa.

Se a maioria das lojas se mantiveram fechadas, isso não foi a opção de trabalhadores informais. “Não tem jeito, precisamos trabalhar. Estamos ganhando pouco, mas é melhor que nada”, disse Wilson, de 35 anos, que vende acessórios para telefone celular.

As sete barraquinhas do segmento em um quarteirão tinham a competição de uma loja improvisada como um box, que aproveitava o coronavírus para fazer propaganda: “Sai da rua, vem para cá”, dizia a gravação.

Lojas de fotografia, bolos, conserto de relógios e salões de beleza também permaneciam abertas. E o público, se não atingia o movimento normal, estava em grande número.

Carros em fila dupla, trânsito nas vias principais do entorno e vans funcionando sem fiscalização disputavam o espaço, mesmo com carros da Polícia Militar em volta. Aglomerações eram vistas em pontos de ônibus, lotéricas, agências bancárias e quiosques vendendo salgadinhos.

“É coisa da imprensa”

Ecoando o discurso do presidente até o início da semana, o pedreiro João, de 77 anos, disse não acreditar que o coronavírus seja tão perigoso. “Isso não existe, é coisa de vocês da imprensa”, gritou, enquanto se afastava da reportagem: “Só parei porque achei que era da igreja”.

Outro a minimizar a pandemia foi o porteiro Roberto, de 69 anos, que passa todos os dias pelas ruas do Calçadão de Campo Grande enquanto caminha de sua casa para o trabalho que complementa sua aposentadoria “muito pequena, ainda pior com a reforma”. Ele culpou o Partido dos Trabalhadores pelas mudanças na Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), ainda que tenham sido propostas pelo então presidente Michel Temer (PMDB).

“Temos que acreditar primeiro em Deus. A imprensa, principalmente a grande mídia, é a mais sensacionalista possível. Criou, sim, uma histeria. O presidente Bolsonaro está correto quando diz isso, mas também acredito nos médicos e estou limpando mais as mãos. A preocupação é apenas com a minha esposa, que é diabética, hipertensa e ‘tirou’ um câncer”, opinou.

Texto: UOL