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PÁSCOA SUBURBANA

Domingo. Chegaram todos da Igreja. A matriarca da família senta na tal da “cadeira da vovó”. Ela já
sabe que não pode abusar do bacalhau mas fica indignada com o que soube esse ano:

– Não fui eu que fiz, mãe!
– Onde já se viu isso, hein? Não fazer o almoço…
– Ah, mãe, encomendei com a Dona Neide. É a filha dela que faz, a Luciene.
– Nunca mais! Quer me matar da pressão, menina?

Termina o almoço raspando o prato e chama o menino sentado ao seu lado:

– Luiz, faz um favor pra vovó adoçar a boca, filho. Pega uma colherinha do manjar…
– Mas vó, a minha mãe disse que…
– Pega lá pra sua vó, sou eu que tô mandando você ir.

O menino volta com a vasilha de vidro e uma colher de sobremesa. O manjar derrete na boca, lógico.

É a receita dela, passada religiosamente para a filha, sem poupar os ingredientes. E agora? O genro
palita os dentes e conversa com os agregados.

Os assuntos na mesa são os mais úteis do mundo: a plástica da prima de segundo grau do sobrinho,
a irmã da vizinha de frente que está estudando no exterior e prometeu trazer perfume, o primo da
madrinha que foi preso mas já foi solto e tá aprontando de novo. E, quando o assunto chega ao fim,
sempre alguém solta um:

– Ah, se fosse no meu tempo!

A mãe recolhe a mesa, vai lavar a louça; As crianças vão para o canto da sala mexer no celular; O
resto acaba caindo em algum canto para tirar o sono da tarde. A esta altura, a matriarca já havia
dormido na cadeira por pelo menos quinze minutos. E ninguém a incomoda, claro.

E a tarde vai chegando, o sol entra pela janela e todas as casas do subúrbio contam suas mesmas
histórias.

 

Escrito por: Ana Paula Bellot

 

 

 

 

 

 

 

 

Um bom livro e um bom vinho são melhores do que muita gente

Estou ficando velha e a cada dia mais medrosa. Tenho medo de tudo. Do escuro, de espíritos, de barata, de montanha-russa, até de manga com leite — melhor evitar. Não me convide para programações radicais, como descer numa tirolesa ou pular de uma cachoeira. Para quê? Já estou velha para algumas emoções. Quanto mais perto dos 40, mais me convenço de que já vivi o bastante para saber, pelo menos, o que eu não quero fazer.

Hoje eu sei que não preciso mais me agarrar à adrenalina para me sentir viva. Ler um livro, assistir a um filme, encontrar um amigo me fazem melhor do que voar de asa delta, por exemplo. Chega uma época em que não precisamos mais de autoafirmação. Nós nos conhecemos tão bem que já não fazemos a menor questão e o mínimo esforço para agradar aos outros. Não temos mais a necessidade de nos sentir aceitas, da mesma forma que também não aceitamos qualquer um e qualquer programa.

Uma coisa é certa: o nível de exigência aumenta impetuosamente com os anos e isso reflete em todos os aspectos. Para sair de casa, só se a companhia for excepcional. Para entrar num relacionamento, nem se fala. Depois dos 30, nós só namoramos se valer muito a pena. Antes só do que mal amada. Se isso é bom? Claro que sim! Fica quem quer ficar e vai embora quem deve ir.

Deixo a pressa para os jovens que têm fôlego para nadar — não sei por que — contra a maré do amanhã. Os anos me ensinaram, e vão ensinar aos afobados, que a vida não pode ser vivida em apenas um dia, e que não se deve beber todos os drinks em uma noite só. O tempo e a ressaca estão aí para provar que o mundo gira igual para todos, mesmo que tenhamos a impressão de que para nós só existem duas velocidades: câmera lenta ou avanço rápido.

Mas não podemos ter medo de envelhecer. Nós não vamos nos transformar em monjas solitárias, apenas nos tornaremos mais seletivas, mais cautelosas e mais reflexivas. É mais ou menos assim; enquanto, antes, nós nos lançávamos ao mar sem pensar, agora observamos as ondas primeiro, sentimos o vento, e molhamos um pé de cada vez.

Apesar de andar medrosa, confesso que eu não temo amadurecer. Sabe por quê? Porque a maturidade me fez enxergar que eu não tenho o controle de nada e de ninguém, senão de mim mesma. Já não ponho a culpa nos outros e nem carrego culpa que não me pertence. Estou mais leve e, ao mesmo tempo, mais forte. Aprendi a me proteger da dor ao invés de apenas curar meus ferimentos. Entendi que perfeição não existe, nem príncipe encantado, e muito menos a felicidade eterna.

Enfim, a mulher madura não tem medo de ficar sozinha. Tem medo de ficar mal acompanhada! É preferível a solidão fiel do que a companhia traiçoeira. Um bom livro e um bom vinho são melhores do que muita gente…

Pessoas que leem livros vivem quase 2 anos a mais do que as que não leem, diz pesquisa

m estudo publicado no periódico Social Science & Medicine revelou que aqueles que leem durante pelo menos 30 minutos por dia podem viver uma vida mais longa dos que os que não o fazem. Para chegar à conclusão, a equipe de cientistas da Escola de Saúde Pública da Universidade de Yale, analisou um total de 3.635 pessoas com mais de 50 anos.

 

Aqueles que passaram parte do tempo lendo sobreviveram, em média, quase dois anos a mais do que os outros. Em outras palavras, os leitores tiveram uma “vantagem de sobrevivência de 23 meses” de acordo com os pesquisadores. Eles sugeriram que dedicar apenas 3,5 horas à leitura por semana seria o suficiente para fazer a diferença.

 

O estudo, porém, mostra apenas uma associação entre a leitura e prolongamento de vida, e não uma relação de causa e efeito. Portanto, não é recomendado ler muito apenas para obter esse resultado. Mesmo assim, os pesquisadores apoiam a ideia de que o hábito possa realmente ajudar a manter a mente ativa e saudável.

 

 

Pesquisadores de Harvard também sugeriram que o processo lento e imersivo de mergulhar em um livro cria um efeito de “envolvimento cognitivo” – algo que também é embasado por pesquisas anteriores realizadas pela Universidade de Emory em Atlanta, EUA. Segundo o estudo, constatou-se que ler um romance estimula e fortalece regiões do processamento de linguagem no cérebro.

 

Também foi sugerido pelos pesquisadores que a leitura de ficção possa aumentar os sentimentos de empatia, fortalecer as conexões com as pessoas ao redor e contribuir para maiores envolvimentos sociais, promovendo mais felicidade e, portanto, maior tempo de vida.

 

No entanto, os efeitos benéficos foram mais relatados para a leitura de livros do que jornais ou revistas. Segundo um dos pesquisadores, Avni Bavishi, “esse efeito é provavelmente porque os livros envolvem muito mais a mente do leitor – proporcionando mais benefícios cognitivos, e, portanto, aumentando o tempo de vida”.

 

 

Para realizar o estudo, as pessoas foram divididas em três grupos: pessoas que não liam, pessoas que liam por até 3,5 horas por semana e pessoas que o faziam por mais de 3,5 horas por semana. Sem considerar gênero, raça ou educação, após 12 anos passados do início do experimento, aqueles do terceiro grupo mostraram uma probabilidade 23% menor de chances de morrer durante o período. Os do segundo grupo tiveram uma redução de 17%, todos em relação a quem não lia.

 

Agora, os pesquisadores pretendem analisar a existência de diferenças notáveis entre os tipos de leitura (ficção e não-ficção) e se e-books e audiobooks são tão benéficos quanto os livros. Porém, eles acreditam que é possível associar os benefícios do hábito da leitura para o cérebro com os promovidos pelos exercícios físicos para o corpo. A pesquisa foi publicada na revista Social Science & Medicine.