Contratar professor particular não é o mesmo que chamar um Uber

ACG

Fiquei sem entender do que se tratava. Conheço de perto todos os professores que trabalham comigo. Ao não reconhecer a voz, perguntei seu nome para localizar o cadastro.

Falei com minha gerente de recursos humanos e ela confirmou: eu estava certa. Ele não era nosso professor. Apenas ACHOU que, ao cadastrar o currículo em nosso site, já fazia parte da empresa.

Depois do susto inicial, retornei a ligação e esclareci. Para trabalhar com a gente, é preciso ser aprovado em nosso processo seletivo, o qual seria iniciado caso o currículo dele fosse selecionado.

Expliquei o processo. Começaria com uma entrevista, depois ele faria provas relativas às disciplinas sobre as quais gostaria de dar aula, e só então assinaríamos um contrato – se ele fosse aprovado nas etapas anteriores.Acrescentei que, no primeiro mês, tanto eu quanto minha auxiliar pedagógica supervisionaríamos o trabalho dele e auxiliaríamos no planejamento das aulas que seriam agendadas. E, somente depois de concluídas todas as etapas, ele faria parte da nossa equipe de docentes de fato.

Para minha surpresa, o mocinho ficou decepcionadíssimo e ainda completou: “Credo, burocrático demais”.

Que nível de consciência esse rapaz tem sobre docência, educação, segurança e uma empresa de aulas particulares? Parece-me que desconhece todos esses assuntos, para arriscar-se a usar a palavra ‘burocrático’ a fim de definir um processo seletivo criterioso que garanta um atendimento adequado a crianças e adolescentes

Trabalho no ramo de aulas particulares em casas há 14 anos e não consigo imaginar contratar professores apenas pelo cadastramento de currículos. É um ramo delicadíssimo, que envolve o público infantojuvenil.

Não ser “burocrática” é ser irresponsável nesse ramo.

É claro que o professor da nossa história é um educador cadastrado em aplicativos que recrutam profissionais pelos próprios apps, e eles verificam os antecedentes criminais, CPF, nada-consta – e voilà, está contratado!

Será que, em se tratando de oferecer um serviço a ser prestado para nossos filhotes, em nossas casas, saber apenas que ele não é um criminoso condenado é o suficiente?

É óbvio que não.

Trabalhar com aulas particulares é oferecer um serviço adequado e desenhado para cada aluno. É preciso ter um professor que entenda de docência, consiga montar uma estratégia de aulas, que tenha repertório de conteúdo e postura para prestar serviços nas casas das pessoas.

Os aplicativos são um enorme avanço. Um caminho sem volta na educação. Precisamos comemorar a economia criativa. O ponto importante é: a sociedade precisa cobrar dos aplicativos que sejam criteriosos na hora de selecionar os profissionais que entrarão nas nossas casas para ensinar nossas crianças.

Por exemplo: o agendamento de mais aulas do que o aluno realmente precisa é algo nocivo. Explico: bons alunos que não têm dificuldades na disciplina, mas agendam aulas regularmente, podem ficar preguiçosos. É preciso ter a honestidade de dizer à família: o número ideal de aulas particulares é menor do que eles pretendem contratar.

Oferecer ajuda para quem não precisa é favorecer uma passividade que, no processo ensino-aprendizagem, não é bem-vinda. E isso não se descobre agendando aulas apenas por aplicativos ou recrutando professores somente por antecedentes criminais. Não contar com um especialista para auxiliar a família nesse momento terá efeito negativo para a relação de estudos do seu filho.

A decisão de oferecer aulas particulares para os nossos filhos exige análise. É preciso descobrir se as dificuldades são recentes ou antigas, entender a personalidade da criança, entre tantos outros “detalhes”. Há muito para conversar com os pais e com o próprio aluno antes de se agendar uma aula.

Contratar professor particular não é o mesmo que chamar um Uber. Tem muito mais coisas em jogo, inclusive a vida escolar do seu filho.

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