O Hospital Semiu, onde Lindama Benjamin de Oliveira morreu em decorrência de complicações depois de um procedimento estético numa clínica na Barra da Tijuca alegou que a empresária teve uma embolia pulmonar — mas o Instituto Médico-Legal (IML) apontou hemorragia e três perfurações no intestino no corpo da empresária.
O jornal teve acesso a dois documentos: o atestado de óbito emitido pelo Semiu e o laudo da necropsia do IML. A família da empresária rejeitou o documento do hospital por não aceitar a causa da morte apresentada pela instituição.
Lindama se submeteu a uma intervenção no abdômen no dia 9, mas começou a passar mal e, há uma semana, se internou no Semiu, morrendo no mesmo dia.
A Polícia Civil do RJ espera ouvir nesta sexta-feira (17) Ernani José, o namorado de Lindama. Ernani deve ser ouvido na 16ª DP (Barra da Tijuca). Nesta quinta (16), o médico que a operou esteve na distrital. Heriberto Ivan Arias Camacho falou por quatro horas sobre as cirurgias de Lindama e de Mônica Sueli da Silva, que também morreu depois do procedimento.
Heriberto não quis falar com a imprensa. O advogado dele, Alessandro Marcos, disse que a inocência do seu cliente será provada ao longo da investigação. A defesa classificou a morte de Lindama como “uma fatalidade” e que há necessidade de um laudo complementar sobre a morte.
“O meu cliente está muito abatido emocionalmente pelo ocorrido. Ele está, realmente, precisando de um tratamento psicológico para se acalmar e se tranquilizar em relação ao ocorrido. Foi uma fatalidade. O caso está sendo investigado. Houve um laudo que está inconclusivo e foi pedido um laudo complementar. O médico-legista solicitou um laudo que ainda não ficou pronto. É necessário que os exames sejam feitos para elucidar o caso”, disse.
Alessandro disse ainda que Heriberto sabia da necessidade de transferir a paciente, mas “por situações atípicas não foi atendida a solicitação de transferência.”
“Existem os pedidos (de transferência). A solicitação foi feita logo após a paciente apresentar problemas. É importante lembrar que a cirurgia foi bem-sucedida.”
Ao menos outras quatro mulheres já procuraram a distrital para denunciar possíveis erros médicos cometidos pelo especialista.
Cunhado de vítima fala em falta de recursos
Lindama, de 59 anos, morava em Cabo Frio, na Região dos Lagos, e morreu na semana passada. A família diz que Heriberto demorou para socorrê-la quando o quadro de saúde piorou. O médico nega e diz que socorreu a mulher “com todas as técnicas médicas possíveis”.
O técnico de mecânica Sandro Leonardo Bezerra de Melo, 50, cunhado de Lindama, também foi ouvido nesta quinta. Ele falou que a cunhada “foi morta aos poucos” e que a clínica não tinha recursos para socorrê-la.

“Ela estava muito inchada e com muito sangue. Fomos conversar com o médico e com o diretor do hospital e disseram que já haviam chamado a ambulância. Mas ela nunca chegava. Eu me prontifiquei em pagar a ambulância para levá-la para qualquer hospital do Rio. No entanto, ele se recusou e disse que eles não haviam conseguido vaga. Chegou uma ambulância sem CTI e eles recusaram a minha ajuda para contratar uma outra ambulância “, contou Sandro.
De acordo com homem, a empresária “pediu para viver.”
“Foi transferida, mas infelizmente ela teve uma parada cardiorrespiratória. Cinco ou 10 minutos no máximo e esse médico que fez a cirurgia disse que ela estava morta.”
Segundo Sandro, a família insistiu para que Lindama fosse transferida para outra unidade de saúde.
“Demos vários recursos para ele transferi-la, mas ele não aceitou. O hospital dele não tinha recursos.”
Procedimento custou R$ 16 mil
Os parentes contam que, na última quinta-feira (9), Lindama veio ao Rio fazer cirurgia plástica no abdômen no Hospital Bitée Cirurgia Plástica e Estética. Ela pagou R$ 16 mil pelo procedimento e chegou à clínica por uma indicação de amigos.
Após a denúncia, o marido de outra paciente, Mônica Sueli da Silva, contou que ela fez com Heriberto uma abdominoplastia e colocou prótese de silicone nos seios no dia 30 de maio no Hospital Semiu, em Vicente de Carvalho, na Zona Norte. Chegou a receber alta no dia seguinte, mas vomitava toda vez que se alimentava.
Após tentativas frustradas de falar com o médico, o marido da paciente contou que ela foi internada novamente no dia 7 de junho, na UTI. Submetida a um novo procedimento, Mônica precisou ter 10 cm de intestino cortados, sob a alegação de Heriberto de que havia uma hérnia.
O marido nega que a paciente tivesse hérnia e acredita que o médico tenha perfurado o intestino dela quando fez a abdominoplastia. O quadro de saúde da paciente piorou, e ela morreu no dia 26 de junho.
Assim como Lindama, ela chegou ao médico por indicação de amigas.
Sobre a paciente Mônica, o advogado Alessandro Marcos disse que não poderia falar porque não foi contratado para atuar nesse caso.
Clínica interditada e diretor preso
Na última segunda (13), policiais da Delegacia do Consumidor (Decon) e agentes da Vigilância Sanitária interditaram o Hospital Bitée Cirurgia Plástica e Estética, clínica onde Lindama fez o procedimento estético.
O estabelecimento foi fechado por falta de documentação e de equipamentos para o pós-operatório, segundo a Decon. No momento em que os agentes chegaram, quatro pessoas passavam por cirurgia.
O diretor-médico da clínica, o colombiano Iovanni Villabona Esparza, foi preso em flagrante. Na quarta-feira (15), a juíza Daniele Lima Pires Barbosa, da 28ª Vara Criminal da Comarca da Capital, converteu a prisão em preventiva, durante audiência de custódia.



